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Oportunidade
Ao falar do seu setor, Tinoco mostrou para que lado a indústria está apontada diante da encruzilhada que está posta para o futuro. E a escolha, diante do consenso de que a mudança dos hábitos de consumo é necessária para se chegar ao chamado desenvolvimento sustentável, não está na diminuição da produção e talvez dos padrões de conforto atingidos pela humanidade. Mas sim na sua transformação pela tecnologia, atingida por meio da inovação; pela descoberta de novas maneiras, sustentáveis, de fazer coisas antigas; ou pelo desenvolvimento de coisas novas que substituam as velhas.
Esse talvez seja o maior desafio da humanidade, em todos os tempos, conforme sugeriu Al Gore, vencedor do Prêmio Nobel da Paz em 2007. Trata-se também de um manancial de oportunidades de negócios. O economista da USP José Eli da Veiga afirma que a evolução cultural da humanidade passou por três saltos decisivos: o domínio do fogo, da agricultura e da máquina a vapor. O desenvolvimento de fontes energéticas sustentáveis, alternativas aos combustíveis fósseis, poderá representar um novo momento de inflexão da trajetória humana sobre a Terra, afirma Eli da Veiga.
Na área energética, a célula de combustível a hidrogênio é apenas uma das frentes. A lista de novidades “verdes”, se ainda não é massificada, já é pensada nos laboratórios. E chegará a todos os setores da vida moderna. Desde as casas ditas inteligentes, com a lógica de aproveitamento máximo dos recursos naturais, até os “carros verdes”, o “plástico verde” ou mesmo o “carvão verde”. Há pesquisas nas áreas de química e bioquímica para banir produtos tóxicos e poluentes, e a nanotecnologia é empregada na busca de processos sustentáveis.É como se a indústria, alertada pelas projeções alarmantes, reagisse com a criação de novos padrões de produção e consumo. Ainda manipulando e alterando a natureza em seu favor, porém mais consciente da necessidade de sua conservação.
Indústria: local
de inovação
Quando soou o alarme nos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas)sobre a proximidade do esgotamento das fontes fósseis de energia, foi inevitável a tensão no meio industrial. A reação necessária foi o redirecionamento dos investimentos. Ao invés de manter as apostas no petróleo e no aumento da produção, o capital voltou-se à pesquisa. E desta movimentação um dos maiores vilões da modernidade começa a ganhar uma transformação radical. O plástico atualmente está em praticamente tudo o que se consome. E o resultado extrapola a capacidade de recuperação do planeta. A estimativa é de que o plástico constitua até 90% do lixo que bóia nos oceanos do mundo, e não se decompõe naturalmente. É feito à base do petróleo, mas já tem alternativa fabricada no Brasil.
Emissões negativas
“O mundo já se decidiu pelas fontes renováveis. Acredito que o caminho da pesquisa por fontes alternativas, em harmonia com a natureza, será inevitável e sem volta”, afirma o diretor de polímeros da Braskem, Guilherme Guaragna. Ele responde pelo desenvolvimento do chamado “plástico verde” na planta da Braskem em Triunfo (RS). A mudança está na origem do plástico. Ao invés da nafta, obtida a partir do petróleo, a indústria usa – por enquanto apenas em laboratório – a cana-de-açúcar. De acordo com Guaragna, já foi obtida qualidade igual à do polietileno com base no petróleo. A diferença só é percebida nos testes de índices de carbono. O “plástico verde” tem emissões negativas. Para cada tonelada de polietileno verde, são capturadas 2,5 toneladas de CO2.
A expectativa é produzir o “plástico verde” para o mercado no ano que vem. E procura não falta. Segundo Guaragna, já há cinco mil solicitações de todo o mundo. Para que se tenha uma idéia, o projeto inicial era de fabricar 200 mil toneladas por ano. Já há encomendas para 600 mil toneladas por ano. A empresa investiu mais de US$ 5 milhões no projeto, atualmente funcionando em uma planta-piloto.
O polietileno é um derivado do eteno e serve de base para embalagens de alimentos, de cosméticos, folhas plásticas e alguns componentes de carros. Antes mesmo de ver concretizado, em escala industrial, o projeto do polietileno verde, a Braskem já desenvolve a segunda fase de pesquisas com matéria-prima alternativa e renovável, e busca a certificação para o polipropileno verde. É um plástico mais resistente, obtido a partir do propeno, também retirado da nafta. Pois a Braskem obteve o propeno a partir do álcool da cana. O material é usado principalmente em peças automotivas, como painéis de carros. E já há uma grande compra em vista. A Toyota dos Estados Unidos fechou um acordo para a compra de 50 mil toneladas por ano do polipropileno verde a partir de 2011.
O exemplo da Braskem, que pode parecer uma mostra do novo caminho que a indústria seguirá, com a aplicação das inovações tecnológicas ambientais, para Guilherme Guaragna, significa, na verdade, um ciclo. “Sempre que há oscilações nos preços do petróleo, as indústrias tendem a voltar suas atenções às matérias-primas alternativas. A diferença agora é que eu acredito que este caminho não vai mais retroceder”, afirma.
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Carrinho de brinquedo feito
com o plástico de cana: |
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produto
terá aplicações na indústria
automobilística real |
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Nas ruas, sem a fumaça
Apostar nas inovações tecnológicas limpas é uma questão de sobrevivência para a indústria automobilística. Não se trata de um salto para o futuro, com cenários ao estilo Jetsons e seus carros voadores. Os modelos estão em plena fase de reinvenção a partir de conhecimentos já dominados pelas multinacionais do setor. Os veículos flex fuel, que permitem o uso de álcool (etanol) ou gasolina, ou ainda os dois juntos, em uma mistura, significaram uma vantagem ambiental em relação aos combustíveis fósseis. Cada carro movido a etanol equivale a 5,6 carros a gasolina deixaram de circular, se consideradas as emissões dos gases causadores do efeito estufa.
Em 2006 foram produzidos 1,4 milhão de carros flex fuel no país, representando 78% das vendas. O cálculo do governo federal é de que, com os flex fuel, o Brasil deixou de emitir nos últimos cinco anos pelo menos 195 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2). Se toda frota brasileira tivesse sido substituída (os flex correspondem a cerca de 15% do total de veículos), a queda das emissões já teria chegado a mais de 500 milhões de toneladas de CO2. São números significativos, mas do ponto de vista ambiental e tecnológico essa não pode ser considerada uma contribuição definitiva, ou o último estágio, como diz o diretor da GM em Gravataí, Roberto Tinoco. É que o etanol obtido a partir da cana – mesmo que vantajoso em relação ao milho norte-americano – é questionável.
A monocultura e os métodos atuais de colheita da cana – pela queimada – são altamente prejudiciais para o escudo verde que contrabalança naturalmente as emissões dos gases. A lavoura em larga escala, sem planejamento, ainda é associada ao desmatamento de florestas nativas. De acordo com um estudo norte-americano, de Timothy Searchinger, publicado na revista Science de fevereiro, a produção de etanol a partir de milho, ao invés de diminuir as emissões, as dobraria no intervalo de 30 anos. Um argumento que é questionado pelos especialistas brasileiros. Os malefícios do etanol a partir da cana, para o pesquisador da Unicamp, Isaías Macedo, estariam limitados aos métodos de colheita e ao processo de usinagem. As emissões na combustão do motor são compensadas pela fotossíntese da planta, que aprisiona o carbono. |