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Currículo Acadêmico
Ademir Reis
Graduado em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo (1976) e em Ciências Biológicas pela Fundação Universidade Regional de Blumenau (1977). Mestre em Botânica pela Universidade Federal do Paraná (1983) e doutor em Biologia Vegetal pela Universidade Estadual de Campinas (1995). Professor titular do Departamento de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Santa Catarina desde 1978. Orientou 23 dissertações de mestrado e cinco teses de doutorado.
Tem 20 livros publicados. |
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PERSONALIDADE AMBIENTAL • • • • • • • • • • • • • • • • • • • •
RESTAURADOR DA
ORDEM NATURAL
Além de ser considerado o sucessor de Raulino Reitz na documentação da flora catarinense, Ademir Reis ajudou a desenvolver a nucleação, uma técnica inovadora para recuperar áreas degradadas
Por Débora Horn
No casarão antigo que abriga o Laboratório de Ecologia Florestal da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o cômodo mais visitado é a sala do coordenador. Em meio a centenas de livros e publicações científicas, ela guarda mais de meio século de conhecimento na área de botânica. Na parede, quadros com fotos de grandes pesquisadores fazem uma espécie de tributo aos desbravadores da flora catarinense. Em lugar de destaque estão Raulino Reitz e Roberto Miguel Klein, os dois principais gurus do coordenador do Laboratório, o professor Ademir Reis. Sorridente, ele pede desculpas pela bagunça da mesa. “Ando muito atarefado nos últimos dias. Acho que foi esse prêmio que me deixou famoso”, brinca. O professor se refere ao 16º Prêmio Expressão de Ecologia, que o reconheceu como Personalidade Ambiental 2008.
Nascido em Tijucas (SC), Reis deixou a casa dos pais aos 12 anos para estudar em um seminário de Brusque, onde conheceu a botânica. A descoberta da nova vocação, que no futuro o faria abandonar o sacerdócio, se deu por meio de um professor especial, o padre Raulino Reitz, um dos maiores botânicos brasileiros (veja box). “Comecei a trabalhar com o padre Reitz aos 13 anos. Aos feriados e finais de semana, fazíamos excursões por Santa Catarina para coletar e catalogar plantas nativas. Foi o início da minha faculdade”, conta Reis.
Dupla influência
Em 1974, o padre Raulino convidou o pupilo para trabalhar no Herbário Barbosa Rodrigues, fundado por ele na década de 1940 para estudar a flora catarinense. Reis trabalhava meio período no herbário e no restante do dia cursava a faculdade de Biologia, na Fundação Universidade Regional de Blumenau (FURB). No herbário, foi contratado como “botânico auxiliar” e trabalhou junto a Roberto Miguel Klein, ecologista que se dedicava ao levantamento fitoecológico do Sul do Brasil. “Enquanto padre Raulino era voltado à botânica pura, Klein era mais conservacionista, se preocupava com as relações da natureza. Acredito que meu trabalho seja reflexo das duas influências. Hoje sou uma mistura de botânico taxonomista com ecólogo”, afirma.
A modéstia não permite ao professor de 58 anos admitir que sua obra já foi muito além do que aprendeu com os mestres. “Ademir Reis é considerado o principal continuador do trabalho do padre Reitz, com atuação reconhecida nos meios científico, político e empresarial e, afora isso, com uma importante trajetória de militância ambiental e ecológica”, afirma Antônio Odilon Macedo, coordenador do júri do 16º Prêmio Expressão de Ecologia. Grande parte desse reconhecimento veio pelos resultados obtidos por Reis em pesquisas sobre recuperação de áreas degradadas, desenvolvidas no Centro de Ciências Biológicas da UFSC, onde é professor desde 1978.
Reproduzir a natureza
No início da década de 1990, quando cursava o doutorado na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Reis deu início a uma linha de pesquisa que se preocupava em restaurar não apenas a vegetação, mas toda a comunidade natural de uma área degradada. “Na natureza, uma comunidade é formada por plantas, animais e microorganismos. Para recuperar uma área não basta apenas enchê-la de mudas. Reproduzir a natureza é muito mais difícil”, explica.
Na tentativa de recriar a complexidade natural, pesquisadores do Laboratório de Ecologia Florestal desenvolveram a nucleação, metodologia que reúne diversas estratégias para favorecer o retorno de plantas e animais às áreas degradadas, restabelecendo a ligação entre fragmentos de florestas e áreas remanescentes. “O principal objetivo é não criar uma natureza antrópica, ou seja, deixar a natureza se expressar, a seu tempo, permitindo que eventualidades naturais ocorram”, afirma o professor.
Processo inovador
Segundo Reis, o ideal é que sejam recuperadas as condições para que sejam retomados os níveis naturais de predação, polinização, decomposição, nascimentos e mortes. Para isso, podem ser associadas diversas técnicas, como criação de refúgios para a fauna, implantação de poleiros artificiais, transposição de solo e coleta de sementes. Em conjunto, todas as técnicas não ocupam mais que 5% da área a ser restaurada, o que torna a nucleação um processo inovador. “Usualmente, ocupa-se 100% da área restaurada, mas todas as experiências têm mostrado que, mesmo depois de 20 ou 30 anos, esse processo inibe a expressão da natureza”, explica o professor.
Focados no diagnóstico e biomonitoramento, programas que utilizavam a nucleação foram aplicados com sucesso na recuperação de áreas próximas às hidrelétricas de Itá e Quebra-Queixo, em Santa Catarina. Ao levarem para os locais degradados a galharia recolhida na região do lago da hidrelétrica, os pesquisadores conseguiram resgatar fauna e flora. Desde 2004, estudos para aperfeiçoamento da nucleação vêm sendo desenvolvidos em parceria com a Batistella Reflorestamento, empresa do Grupo Batistella que produz madeiras e derivados. A técnica tem ajudado a restaurar matas ciliares no Norte do estado, onde a Batistella possui cerca de 40 mil hectares de terra.
Para Reis, embora seja importante, a transferência de conhecimento da universidade para as empresas não é suficiente para resolver problemas ambientais. “Não basta entregarmos a tecnologia às empresas. É preciso alterar a legislação e criar políticas ambientais adequadas, gerando mudança em toda a cadeia”, defende. No Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), Reis é o relator de uma normatização sobre metodologias de restauração das Áreas de Preservação Permanente (APPs).
Poder motivador
De acordo com o professor, as exigências legais ainda são a principal fonte de motivação das empresas para investir na recuperação de áreas degradadas. Em Santa Catarina, a pressão do Ministério Público Estadual sobre indústrias de diversos setores tem resultado em Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), que recomendam o uso do sistema de nucleação para recuperar a biodiversidade.
Pode parecer contraditório, mas ao mesmo tempo em que trabalha com restauração, ajudando o setor produtivo a se redimir de passivos ambientais, Reis se dedica ao estudo de espécies ameaçadas, que ele próprio classifica como “o grande terror das empresas”. Nesses estudos, tem papel fundamental o acervo do Herbário Barbosa Rodrigues, do qual é diretor científico. São 70 mil exemplares dessecados de plantas, o equivalente a 95% da flora catarinense. O herbário também documenta as famílias de plantas encontradas no estado, por meio da publicação Flora Ilustrada Catarinense, uma obra que já tem 180 volumes. “Temos hoje cerca de 70% das famílias presentes em Santa Catarina publicadas. Não há no Brasil estado algum com esse nível de documentação, que só atingimos porque Padre Reitz idealizou o projeto ainda em 1951”, ressalta Reis.
Referência em pesquisa
A coleção Flora Ilustrada Catarinense é referência para que pesquisadores identifiquem plantas em risco de extinção. Recentemente, um estudo desenvolvido no Laboratório da UFSC serviu como base para interromper a construção de uma hidrelétrica na região de Ibirama (SC), que ameaçava dizimar uma espécie de bromélia (Dyckia ibiramensis). Outra bromélia, a Dyckia distachya, ficou famosa por causar um embate entre ambientalistas e o consórcio responsável pela construção da Usina Hidrelétrica Barra Grande, localizada entre os municípios de Anita Garibaldi (SC) e Pinhal da Serra (RS). Após pesquisas comprovarem que a espécie só existia naquela região, o resgate e relocação da bromélia foram ações compensatórias impostas à Barra Grande. “Para muitas empresas, esse pode ser o lado ruim do Ademir. Mas é uma questão de compromisso e de ética: utilizar o conhecimento que temos para salvar o planeta”, afirma o professor. Compromisso que lhe garantiu o 16º Prêmio Expressão de Ecologia.
Botânica: uma
vocação religiosa
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Reitz: respeitado pelo conhecimento
científico, dirigiu
o Jardim Botânico
do Rio e a Fundação do Meio
Ambiente
de Santa Catarina |
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O padre Raulino Reitz, fundador do Herbário Barbosa Rodrigues, descobriu cinco gêneros e 327 espécies de plantas
O professor Ademir Reis se considera uma pessoa de sorte por ter convivido com um dos maiores botânicos brasileiros: Raulino Reitz. “Foi o homem mais metódico que conheci, com uma incrível capacidade de organização e planejamento, que enxergava tudo em médio e longo prazos. Trabalhamos juntos até a sua morte”, conta o professor. Nascido em Antônio Carlos (SC), o padre que fez da botânica uma vocação quase religiosa foi responsável pela descoberta de cinco gêneros e 327 espécies de plantas, até então completamente desconhecidas pela ciência. Para isso, coletou cerca de 30 mil plantas em todo o estado, durante viagens para pesquisa de campo.
Aos 23 anos de idade, fundou o Herbário Barbosa Rodrigues em São Leopoldo (RS), onde estudava. Na época, o herbário era formado por seis caixas de papelão cheias de plantas e 15 livros sobre botânica, que acompanharam Reitz quando ele, ordenado sacerdote, voltou a Santa Catarina para exercer as atividades pastorais. Transferido para Itajaí em 1946, implantou na cidade o Herbário Barbosa Rodrigues, transformando-o em uma sociedade civil científica. A sede própria foi concluída em 1954.
Teve atuação importante na criação de várias unidades de conservação, como o Parque Botânico do Morro do Baú (Ilhota), o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro (Grande Florianópolis) e a Reserva Biológica do Sassafrás (Doutor Pedrinho e Benedito Novo). Respeitado pelo conhecimento científico, exerceu os cargos de diretor do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, entre 1971 e 1975, e de diretor da Fundação de Meio Ambiente de Santa Catarina (Fatma), entre 1976 e 1983. Faleceu em 20 de novembro de 1990, aos 71 anos. Em junho do mesmo ano, havia recebido o Prêmio Global 500, concedido pelo Programa Nacional das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), por sua contribuição à preservação ambiental.
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