Newsletter Ambiental 15/01/2009
acesse o site do prêmio expressão de ecologia
A
primeira newsletter ambiental do Prêmio Expressão de Ecologia em 2009 destaca a matéria sobre o Diálogo Florestal publicada no Anuário 2008, edição que você pode acessar gratuitamente na internet ou adquirir o exemplar impresso. A maior premiação ambiental do Sul abrirá inscrições em abril, iniciando mais uma jornada, em sua décima-sétima edição consecutiva, para captação das principais ações ambientais em andamento ou já desenvolvidas na região.

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Diálogo Florestal supera conflitos entre ambientalistas e empresários, estabelece
parcerias e prova que é possível conciliar desenvolvimento econômico e meio ambiente

Q
ue direção seria tomada por um caiaque ocupado por um ambientalista e um executivo da indústria de celulose? Parece uma piada, mas realmente vários barcos com essa composição se prepararam para descer as corredeiras do Rio Itatinga numa bela manhã de maio de 2007. A resposta: cada ocupante remou para um lado diferente, o que resultou em movimentos circulares, antes de encontrarem a sintonia para tomarem o rumo certo. O fato aconteceu no Parque das Neblinas, uma propriedade da Suzano Papel e Celulose no estado de São Paulo, durante a hora de lazer de um encontro do Diálogo Florestal, um fórum no qual se reúnem ambientalistas e empresas. A organização do evento colocou, propositalmente, os dois lados no mesmo barco. E acabou que as remadas em direções contrárias de algumas duplas, sucedidas pela harmonia, acabaram servindo como metáfora do próprio Diálogo Florestal, um divisor de águas no relacionamento entre empresários e ambientalistas. Um relacionamento que de beligerante passou a civilizado e produtivo.

O Diálogo Florestal envolve diretamente 14 ONGs e 11 grandes empresas do setor florestal com atuação na mata atlântica e no pampa. A idéia, ousadíssima para quem conhece o conturbado histórico de relacionamento entre os atores, é construir uma visão comum partindo do princípio de que as operações florestais vão continuar crescendo, porém de modo sustentável. Tem dado certo. Os novos termos do relacionamento estão possibilitando tanto o aumento da produção industrial como das áreas de conservação. “Dialogando, encontramos objetivos comuns, e o principal deles é a conservação ambiental. Estamos trabalhando juntos e potencializando resultados, provando que desenvolvimento econômico e meio ambiente não são contraditórios”, diz Miguel Calmon, diretor do Programa Mata Atlântica da ONG The Nature Conservancy (TNC).

Na primeira fase do programa, encerrada em 2008, estima-se que mais de 50 mil hectares de novas áreas passaram a ser efetivamente protegidos. E pelo menos outros 50 mil hectares se tornaram reservas privadas, criadas por empresas do setor. Áreas que estão principalmente nos estados do Espírito Santo e da Bahia. Já no Rio Grande do Sul, estado em que se projeta o plantio de mais de 300 mil hectares de árvores exóticas para suprir grandes projetos da indústria de papel e celulose, o Diálogo Florestal é influente na definição do zoneamento ambiental – regra que determina o que pode ser produzido e onde. No Paraná e em Santa Catarina, indústrias e ambientalistas estão viabilizando a criação em meio a plantios industriais de corredores ecológicos, fundamentais para a preservação da fauna, e proporcionando a melhoria ambiental de milhares de pequenas propriedades rurais que fornecem madeira
às indústrias.

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Miguel Calmon, diretor da TNC
Queremos construir uma nova visão, compartilhada entre empresas e ambientalistas, que leve a resultados concretos para a conservação e a recuperação da mata atlântica.
UM PERFIL DA MATA ATLÂNTICA
• Bioma riquíssimo em biodiversidade: possui mais de 20 mil espécies de plantas, metade delas endêmicas (restritas ao bioma).
• Originalmente se estendia por 1,3 milhão de km2, o equivalente a 13% do território nacional. Restam 7% da cobertura florestal original.
• A mata atlântica se distribui por 17 estados, onde vive 70% da população e se produz 80% do PIB do país.
• Há meio século seus domínios são utilizados para plantações de árvores exóticas, principalmente eucaliptos
e pínus.
Foto: Miriam Prochnow
Araucárias eram abundantes na região Sul, mas a devastação as reduziu para 1% da quantidade original
 
Foto: Divulgação
  Reunião regional do Diálogo Florestal em
  Atalanta (SC): diagnóstico e banco de dados
  para balizar ações mais efetivas
   
 

Os ativos de cada um
O que empresários e ambientalistas oferecem para turbinar a parceria

Empresas
Possuem remanescentes e áreas
para restauração
Visão e cultura florestais
Tecnologia e experiência
Pessoal qualificado
Capacidade de investimento
Interesse no tema (reputação, certificação)


Ambientalistas
Conhecimento sobre biologia da conservação
Capacidade de articulação e mobilização local
Legitimidade junto à sociedade
Pessoal qualificado
Capacidade de alavancagem de recursos
Credibilidade junto a governos, financiadores e agentes locais


Fonte: Diálogo Florestal
   
Novas articulações
Mais importante do que os números que apresenta é o que o Diálogo Florestal representa: a superação da lógica do enfrentamento entre empresários e ambientalistas, vigente desde o começo da existência dos movimentos ambientais. É certo que no início o conflito se mostrou necessário, pois os poderes econômico e político não davam a mínima bola para o meio ambiente. O fenômeno era típico do então chamado Primeiro Mundo, mas mesmo no Brasil o barulho dos engajados rendeu êxitos históricos. Atribui-se à ação de ambientalistas como os gaúchos José Lutzenberger e Magda Renner a adoção de cuidados ambientais nos setores de celulose e petroquímica no Rio Grande do Sul, por exemplo. Em países como a Alemanha o movimento se organizou em torno do Partido Verde, e obteve peso político importante. No Brasil, ambientalistas ocuparam posições no parlamento e cadeiras nos primeiros escalões de governos nos últimos anos.

Iniciativas como o Diálogo Florestal, entretanto, podem ser classificadas em outra categoria política. “São novas articulações no âmbito da sociedade civil, novas formas de prática democrática envolvendo setores antagônicos”, diz o sociólogo Antonio Odilon Macedo, coordenador do júri do Prêmio Expressão de Ecologia. Macedo explica que a ocupação usual do espaço político se dá por meio dos partidos, ou por outras formas de convergência como gênero, etnia, categoria profissional ou grupos de moradores. Já o Diálogo Florestal se organiza em torno de uma temática comum, o meio ambiente, mas tendo como atores grupos com interesses diversos. “Os grupos envolvidos não abriram mão de suas identidades e criaram mecanismos extra-institucionais para encontrar denominadores comuns que permitam o trabalho conjunto”, diz o sociólogo, que denomina o movimento de “democracia ambiental”.

Acesse o Anuário Expressão de Ecologia 2008 e leia esta matéria na íntegra.

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