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Crônica de uma era


urante a década de 1980 e início dos anos 90, a região Sul passava por mudanças que transformariam para sempre sua paisagem. Grandes empresas dos três estados começavam a controlar a poluição de seus processos industriais de uma forma jamais vista. A abertura da economia trouxe a competição com companhias estrangeiras e a necessidade de cuidar, além da qualidade do produto, também da qualidade do ambiente em que a empresa estava inserida. Projetos ambientais, que antes podiam ser sinônimos de gastos desnecessários, passaram a fazer parte das estratégias de negócios, de forma integrada, envolvendo empresa e comunidade.
Foi nesse contexto que aconteceu a conferência mundial sobre meio ambiente, a Rio Eco-92, quando os principais líderes globais debateram no Rio de Janeiro os desafios para melhorar a interação do homem com a natureza. Acompanhando as mudanças nas empresas sulistas na área ambiental, Expressão registrou a conferência em uma edição especial. A publicação retratou os principais projetos ambientais e as novidades nas políticas de meio ambiente estaduais.
Depois que a edição especial chegou às bancas, a sensação que ficou foi a de que o trabalho não havia sido concluído – ele estava apenas começando. Foi daí que nasceu o Prêmio Expressão de Ecologia, que viria a se tornar um dos maiores do gênero no país para empresas, entidades ONGs e poder público. Já estava consolidada a idéia de que a onda verde tinha vindo para durar, de que não se tratava apenas de um simples modismo, e as empresas passavam a dedicar efetiva atenção ao assunto, que começava a fazer parte de suas estratégias de negócios. Mas uma pesquisa da Fundação Zoobotânica do Rio Grande do Sul revelou que os cidadãos apontavam a falta de consciência das pessoas e a ganância dos empresários como os principais motivos da degradação do meio ambiente.
Ou seja: os avanços e investimentos em controle da poluição das grandes empresas eram desconhecidos pela maioria. O Prêmio Expressão de Ecologia surgiu para reconhecer, divulgar e estimular continuamente o progresso na área ambiental na região Sul, papel que desempenha
até hoje.


Cinco dos 134 cases inscritos na 15ª edição do Prêmio Expressão de Ecologia

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  Joinville e o poluído rio Cachoeira nos
  anos 90: empresas da cidade abraçaram
  causa ambiental
   

Em 15 anos, mais de 1.200 cases foram inscritos e 335 foram premiados. “O número de inscritos demonstra que a conquista do reconhecimento é importante para as empresas. Isso melhora a imagem pública, aumenta a satisfação dos colaboradores e prova que a gestão ambiental vale a pena”, diz o biólogo e ambientalista Lauro Bacca. “É importante que, cada vez mais, os prêmios destaquem e indiquem aqueles que fazem além do simples dever, ou seja, que executam ações positivas na área ambiental de forma espontânea e não por que são coagidos pela legislação ou opinião pública”, diz Bacca.

Evidente evolução
Um olhar em retrospectiva para os 15 anos passados é didático para se perceber a evolução do assunto dentro das empresas e na sociedade. Os primeiros projetos premiados fizeram parte de grandes esforços conjuntos para resolver problemas antigos. Em sua primeira edição, em 1993, e nas edições seguintes, o Prêmio Expressão de Ecologia foi concedido principalmente às empresas que traduziram em projetos efetivos a tendência do controle da poluição por meio do tratamento dos efluentes líquidos. Eram projetos como o que envolvia empresas da bacia do rio Guaíba, que concentrou em torno de si boa parte do desenvolvimento urbano e econômico do Rio Grande do Sul. Pesquisas do final da década de 1980 mostraram que 33 mil indústrias despejavam seus efluentes diretamente nos rios que compõem a bacia, poluindo aquelas águas.

As etapas do tsunami verde

Anos 60: o despertar

Em 1968, a primeira conferência intergovernamental da Unesco (braço da ONU para educação, ciência e cultura) trata do uso racional dos recursos da biosfera. O movimento ambientalista ganha força e organização.

Anos 70: conscientização

Em 1972 o Clube de Roma publica o Relatório Meadows, indicando que o planeta só não entraria em colapso caso o crescimento mundial fosse contido. Também em 1972 acontece a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente e o Desenvolvimento, em Estocolmo. O dia 5 de junho, data do início do evento, torna-se Dia Internacional do Meio Ambiente.

Anos 80: primeiros passos

A política Nacional do Meio Ambiente, que deu base para a legislação ambiental brasileira atual, é editada em 1981. O trabalho de conscientização feito por duas ONGs, a Agapan e a ADFG, culmina na aprovação da primeira lei estadual de agrotóxicos do país, no Rio Grande do Sul, em 1983. Em 1987, a ONU publica o Relatório Brudland, indicando que o desenvolvimento econômico precisaria estar em sintonia com as questões ambientais.

Anos 90: ações efetivas

Chefes de Estado reúnem-se no Rio de Janeiro em 1992 para a Conferência Mundial de Meio Ambiente Eco-92. Em 1993, a Editora Expressão lança o Prêmio Expressão de Ecologia. A Comunidade Econômica Européia oficializa o selo ecológico. Em 1996 são publicadas as normas ISO 14000, que estabelecem diretrizes para a gestão ambiental nas empresas. Em 1997 líderes mundiais assinam o Protocolo de Quioto, acordo que compromete os países industrializados a reduzir emissões de carbono.

Anos 2000: sentido de urgência

Os primeiros anos do século 21 são marcados por notícias que desenham um futuro intimidante para a sobrevivência no planeta, e provocam um maior sentido de urgência para o encaminhamento das questões ambientais. De 2001 a 2006 o mundo perdeu 36 milhões de hectares de florestas, mais de 16 mil espécies estão ameaçadas de extinção, o aquecimento global provoca a temperatura mais alta dos últimos 400 anos e estudos apontam que nos próximos 100 anos a temperatura média subirá entre 1,3 e 5,8
graus centígrados.


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  Aterro industrial próprio da Döhler,
  inaugurado em 1996, foi o primeiro
  construído por uma empresa
  em Santa Catarina
   

Bacias hidrográficas
A Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) lançou, em 1989, o Pró-Guaíba, programa que forçou o tratamento de efluentes industriais. Como resultado, entre 1996 e 2000, a Fepam estimou uma redução de cerca de 90% da carga bruta de efluentes industriais lançados nos rios. Algumas indústrias que melhor se adequaram aos novos padrões foram agraciadas com o prêmio, assim como a ativista Magda Renner, da Associação Democrática Feminina Gaúcha (ADFG), que denunciara o descaso com o Guaíba décadas antes do lançamento do programa e foi eleita personalidade ambiental no ano de 1997 (leia na pág. 30).
Em Santa Catarina, um estudo feito pela Fundação de Meio Ambiente (Fatma) na década de 80 mostrou que 160 empresas eram responsáveis por 80% da poluição industrial das quatro principais bacias hidrográficas catarinenses. As águas dos rios do Peixe, Itajaí-açu e Itapocu e da Baía da Babitonga eram fonte de abastecimento para quase metade da população do estado e estavam comprometidas. Na década seguinte, empresas de toda Santa Catarina dariam largada a uma corrida contra a morte dos rios e também para fugir das multas dos órgãos fiscalizadores.

CAMPEÕES DO MEIO AMBIENTE

Maiores vencedores do Prêmio Expressão de Ecologia (1993 – 2007)

 Nove vezes  
  Coopercentral / Aurora  SC | 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2001 e 2007
   
 Sete vezes  
  Klabin  PR/SC | 1998, 1999, 2000, 2002, 2005, 2006 e 2007
   
  Sadia  SC | 1997, 1998, 2001, 2003 (dois prêmios), 2004 e 2006
   
 Seis vezes  
  Agco  RS | 1999, 2000, 2001, 2002, 2003 e 2005
   
  Bosch  PR | 1997, 1998, 2000, 2002, 2005 e 2006
   
  Ceusa  SC | 2002, 2003, 2004, 2005 (dois prêmios) e 2007
   
  Embrapa  PR/SC/RS | 2000, 2003, 2004, 2005, 2006 e 2007
   
 Cinco vezes  
  Bunge Alimentos  SC | 1994, 1996, 2000, 2005 e 2007
   
  Copel  PR | 1995, 1999, 2002 e 2006 (dois prêmios)
   
  Eliane  SC | 1995, 1996, 1997, 1999 e 2006
   
  Epagri  SC | 1999 (dois prêmios), 2000, 2002 e 2005
   
  Fundação O Boticário  PR | 1995, 2000, 2002, 2005 e 2007
   
  Prefeitura de Porto Alegre  RS | 2000, 2001, 2002, 2003 e 2004
   
 Quatro vezes  
  Café Iguaçu  PR | 2003, 2005, 2006 e 2007
   
  DSM Elastômeros  RS | 1998, 1999, 2000 e 2002
   
  Perdigão  SC | 1995, 2001, 2003 e 2004
   
  RGE – Rio Grande Energia  RS | 2005 (dois prêmios), 2006 e 2007
   

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De vilã a modelo
No total, os investimentos dessas indústrias somaram US$ 150 milhões entre 1988 e 1993. As têxteis Karsten e Hering foram destaques da primeira edição, devido aos projetos pioneiros. Em 1995, o projeto da Perdigão mereceu o Prêmio Expressão de Ecologia na categoria Controle da Poluição. Apontada como uma das causadoras da degradação da bacia do rio do Peixe, a indústria de alimentos investiu quase US$ 5 milhões para implantar sistemas de tratamento de efluentes, reduzindo a carga poluidora em mais de 52 vezes. Atualmente a empresa é a única do setor de alimentos a integrar o Índice de Sustentabilidade da Bovespa, a bolsa de valores de São Paulo.
Tendências pioneiras seriam reconhecidas, como o projeto da Döhler, empresa têxtil de Joinville, que venceu o Prêmio Especial do júri em 1996. O case “Superando o controle e partindo para a gestão ambiental” indicava o desafio das indústrias a partir daquele momento. O efluente líquido saía da empresa tratado, mas e o que fazer com o lodo que sobrava das ETEs? A Döhler, que tratava seus efluentes desde 1988, resolveu a questão implantando um sistema de destinação final para os resíduos sólidos industriais.

   
 
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  ETE da AGCO, em Canoas, cuja unidade
  fabril foi concebida dentro do conceito de
  Produção mais Limpa (P+L)
   
 
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  Vencedores do Prêmio Expressão
  de Ecologia em 1999: esforço
  ambiental reconhecido
 
Por sua vez a Malwee, de Jaraguá do Sul, igualmente do segmento têxtil, também foi pioneira ao construir um aterro para dispor o lodo resultante do tratamento dos resíduos. Por esse trabalho foi uma das vencedoras do Prêmio Expressão de Ecologia em 1997.

Marca do pioneirismo
Depois dos efluentes e resíduos, a preocupação começou a se voltar para o interior da fábrica, como já apontava o case da Döhler de 1996. Três anos depois, o projeto da AGCO do Brasil traduziu essa tendência. O case apresentava a implantação da unidade fabril da empresa em Canoas (RS), que foi orientada pelo conceito de Produção mais Limpa (P+L). A indústria de máquinas agrícolas conseguiu aumentar a eficiência no uso de matérias-primas, água
e energia.

Vida útil mantida
Depois da virada do século, o prêmio tem apresentado projetos que envolvem a proteção ambiental antes mesmo do início da produção, e assim as novas tendências que vão se impondo atualizam e revalidam o prêmio, que se mantém pertinente. Situação distinta daquela imaginada pelos coordenadores há uma década e meia. O sociólogo e consultor ambiental Antonio Odilon Macedo, coordenador do júri desde a primeira edição, estimava a “vida útil” do prêmio em cinco anos. Imaginava-se que depois que as empresas tivessem a certificação ISO 14000, os projetos nessa área seriam corriqueiros e a idéia de premiar tais ações já
estaria superada.
Mas a realidade mostrou-se bem diferente, o aquecimento global e a ameaça à vida no planeta deixaram de ser conspirações e ganharam comprovação científica. Com isso, o trabalho de empresas, ONGs e do governo para recuperar a natureza degradada e preservar o meio ambiente segue longe do fim, em constante evolução. “Os projetos de controle da poluição e gestão ambiental já são feijão-com-arroz. A vez, agora, é de projetos que envolvam a proteção da biodiversidade”, diz Macedo. “Queria que dentro de cinco anos o meio ambiente já não estivesse mais em risco e que a prática do desenvolvimento sustentável fosse como aprender a andar, simples assim. Mas os desafios que estão sendo apresentados mostram que isso está bem distante”, diz Macedo. São sinais de que ainda há uma longa “vida útil” para o Prêmio Expressão de Ecologia.

Fonte: Anuário Expressão de Ecologia 2007

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