04/01/2016 Para Izabella Teixeira, o acordo de Paris coloca o mundo “em outra fase” das emissões de carbono

Para Izabella Teixeira, o acordo de Paris coloca o mundo "em outra fase" das emissões de carbono

Segundo a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o rascunho do acordo da COP21 "sinaliza uma nova fase nas emissões de carbono para o mundo".
Foto:
Pedro Malavolta, de Paris.

Ministra do Meio Ambiente participou de debate organizado no último dia da COP21 pela Iniciativa Empresarial em Clima, integrada pelo Ethos, entre outras instituições.

 

Otimista, a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou que o rascunho do acordo da COP21 “sinaliza uma nova fase nas emissões de carbono para o mundo”. Ela participou do evento, promovido pela Iniciativa Empresarial em Clima (IEC) para debater as ações do Brasil até 2020, no último dia da 21ª Conferência do Clima das Nações Unidas (COP21), em dezembro. Além da ministra, o debate contou com a apresentação de casos de sucesso de empresas na diminuição da emissão de carbono e de organizações ligadas à iniciativa privada.

 

A ministra aproveitou o clima de final de conferência para falar sobre os passos que o governo e a sociedade brasileira devem dar após a COP21. Para ela a INDC (do inglês, Intended Nationally Determined Contribution, ou Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida, em português) brasileira deverá servir de parâmetro do planejamento do longo prazo.

 

Teixeira defendeu que é preciso mudar a “cultura política” e que é possível que a INDC seja utilizada para o planejamento das organizações públicas e privadas no Brasil. No entanto, para que isso se concretize, a própria ministra admitiu que ainda é necessário definir os mecanismos e as políticas que viabilizarão esse planejamento.

 

Além disso, ela também afirmou que não será possível condicionar nossa transição para uma economia de baixo carbono apenas à ajuda internacional. “O Brasil foi o único grande país em desenvolvimento que não condicionou sua contribuição ao aporte de recursos internacionais”, lembrou a ministra. “Não podemos também passar anos debatendo como será financiada essa mudança, precisamos fazer acontecer, como um país”. Para reforçar seus argumentos, ela fez referência às dificuldades enfrentadas para implementar duas políticas públicas na área ambiental: os aterros sanitários, que são tema de debate no congresso nacional há mais de duas décadas, e a logística reversa da indústria de eletroeletrônicos, que até o momento não conseguiu financiar as ações nos estados brasileiros.

 

A ministra prevê que os debates sobre os mecanismos para estimular a descarbonização da economia aconteçam até 2020, quando termina a vigência do Plano Nacional de Mudanças Climáticas. “Até lá, podemos operar em modo ‘business as usual’. Depois, precisamos já ter mudado de patamar”, declarou. Em sua visão, “o papel da iniciativa privada não poderá ser reativo à mudança climática. Também não poderá apenas ser sinônimo de atenção às oportunidades de mercado. É mais do que isso”. Ela se diz otimista em relação ao que esperar das empresas brasileiras e já vê algum protagonismo nessa direção. “Essa nova geração de homens e mulheres de negócios com quem eu tenho conversado precisam assumir a gestão de suas empresas pensando no baixo carbono como um ativo econômico”, afirmou.

 

Na avaliação de Teixeira, os dois pontos mais preocupantes na emissão de carbono do Brasil são a energia, em especial a questão da eficiência energética, e a agricultura. “A agricultura precisará mudar e passar a emitir menos carbono, já que o Brasil será o maior produtor mundial de comida em 2024, segundo a FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura]”.

 

A IEC é uma ação conjunta de várias organizações empresariais e acadêmicas que atuam na área no combate à mudança do clima. Entre elas estão o Instituto Ethos, o Fórum Clima, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), a Rede Brasileira do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), o Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas (GVces), o Carbon Disclosure Project (CDP) e a agência Envolverde.

 

A diferenciação dos países
Em sua fala, Izabella Teixeira também comentou sobre o grupo de trabalho que coordenou na elaboração do acordo, a diferenciação dos países no que concerne às suas obrigações e as possibilidades de contribuição no combate à mudança climática. Segundo ela, trata-se de criar uma maneira para os mais de 190 países que participaram da conferência atingirem suas metas. “Nós estamos falando aqui de qual vai ser o caminho para o desenvolvimento de todos os países. A questão da flexibilidade [que a diferenciação garante] é para que as adaptações não sejam algo imposto”, explicou.

 

O apoio à presença do “muito abaixo dos 2º”
Também presente no evento, o secretário de mudanças climáticas do Ministério do Meio Ambiente, Carlos Klink, comentou sobre uma das polêmicas do texto final do acordo: a meta de aquecimento “muito abaixo dos 2º”. “A proposta do Brasil ainda é limitar a 2º o aumento da temperatura da Terra. Mas achamos bom que essa questão possa aparecer como um indicativo no texto e ser um parâmetro para as futuras revisões”, disse ele.

 

Klink também afirmou que a avaliação da política nacional de combate à mudança climática avançou muito nos últimos cinco anos e que a sua adaptação “já começa a ser feita aqui na COP21”.

 

Os casos de sucesso das empresas
Três empresas brasileiras apresentaram seus casos de sucesso na redução das emissões de carbono durante o evento organizado pela IEC. A primeira delas foi a CPFL Energia. Rodolfo Sirol, diretor de sustentabilidade, explicou que os investimentos em energia renováveis, em especial as menos comuns no Brasil, como eólica e solar, dão uma vantagem competitiva no longo prazo para o setor privado e também “nos torna mais atrativo no mercado de trabalho, ajudando a reter mentes jovens que queiram contribuir com a mudança”.

 

Já Celina Carpi, do conselho de administração do Grupo Libra e presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos, comentou sobre o projeto de expansão do porto do Rio de Janeiro. Durante a Rio+20, a empresa colocou como meta uma redução de 40% de emissão de gases do efeito estufa em suas obras até 2020. Em 2015, já atingiu uma redução de 21%. Porém, essa não é a única preocupação do projeto no âmbito da sustentabilidade. “A mais desafiadora para nós, empresários, é a dimensão do ser humano”, afirmou. Ao lado do porto do Rio de Janeiro, fica a comunidade do Caju, que possui um dos piores IDH da cidade do Rio de Janeiro. Para não piorar a situação em que vivem essas pessoas, uma série de medidas foram tomadas, entre elas o transporte de material de construção por meio de balsas, evitando assim o aumento da poluição e do barulho na região. Carpi ainda disse que está “muito orgulhosa da proposta do nosso país. E essa INDC vai ajudar a mudar a forma de fazer negócios no Brasil”.

 

O terceiro caso de sucesso foi apresentado por Jorge Soto, diretor de desenvolvimento sustentável da Braskem. Uma das grandes inovações da empresa foi o inventário da emissão de gases do efeito estufa de todas as suas plantas. Ele também está otimista com o Brasil e afirmou que o país precisa tomar a dianteira na pesquisa e produção de uma economia de baixo carbono. “Que outro país vai conseguir fornecer produtos descarbonizados com a intensidade que nós podemos oferecer?”, questionou.

 

Perspectivas para as políticas públicas para 2020
O evento foi encerrado com um debate entre os representantes das entidades que fazem parte da IEC. O primeiro a falar foi Carlos Pereira, da Rede Brasileira do Pacto Global da ONU, que ressaltou a necessidade de as empresas brasileiras entenderem a transição para uma economia de baixo carbono como oportunidade.

 

Paul Dickson, presidente do CDP, trouxe uma perspectiva de fora do Brasil sobre o protagonismo das empresas brasileiras nessa questão. A iniciativa que ele dirige reúne quase 8% do capital de investimento no Brasil, um número muito superior a outros países, expondo as taxas de emissões do setor privado de maneira comparativa. Portanto, estar no ranking do CDP é como participar de uma Olimpíada. “E empresas são competitivas”, explica Dickson. Segundo ele, os estadounidenses acreditam que, diferentemente de outros países, as “empresas do Brasil têm uma face mais humana, como se tivessem mais coração”.

 

A coordenadora do GVces, Mariana Nicolletti, listou uma série de desafios para a iniciativa privada em relação às metas da INDC, como a viabilização de investimentos, dar escala ao que já foi feito e planejar tendo em vista o longo prazo. Nicolletti acredita que “essas não são questões simples”, mas questiona: “a expertise da iniciativa privada não é fazer acontecer?”

 

Mudança do estilo de vida
Jorge Abrahão, diretor-presidente do Instituto Ethos, também listou os desafios que as empresas enfrentarão após a COP21. Para ele, o setor privado precisa trabalhar a adaptação, a transparência de seus dados, a ambição de longo prazo, o financiamento dessa mudança de perfil da economia e como será a participação das companhias nas políticas públicas que vão delinear essa nova fase econômica.

 

Em alusão ao discurso do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, Abrahão afirmou que é preciso dar atenção à mudança do estilo e ao modo de vida. “O setor empresarial precisa tratar dessa questão, algo que ainda não começamos a fazer. Essa pode ser uma oportunidade para que as empresas brasileiras sejam liderança nesse processo”.

 

Coube à Marina Grossi, presidente do CEBDS, a última intervenção da mesa. Ela lembrou que as iniciativas empresariais brasileiras nunca estiveram tão organizadas em uma COP. Em sua avaliação, 2016 será “o ano da implementação” de tudo que tem sido debatido nos últimos anos em relação à mudança do clima. E encerrou dizendo que “é a hora de mostrar que o Brasil não é melhor do que os outros países apenas comparativamente, mas também competitivamente”.

Fonte: Instituto Ethos / Por Pedro Malavolta, de Paris.

 




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