08/10/2015 Conferência Ethos: falando ao futuro, sem esquecer o presente

Conferência Ethos: falando ao futuro, sem esquecer o presente

Foto: divulgação.

Num momento crítico para a política e a economia do país, o Ethos e seus patrocinadores não hesitaram em apostar num evento inovador que combinou debates sobre os desafios e oportunidades para as empresas e trouxe inspiração para avançar na agenda do desenvolvimento sustentável.

 

A edição de 2015 da Conferência Ethos 360° terminou em 23 de setembro último cumprindo o desafio de, por meio de conteúdo e diálogos de alto nível, reunir presidentes, gestores, empreendedores e especialistas de diferentes setores da economia para discutir grandes ideias, refletir sobre perspectivas inusitadas para a gestão e conhecer casos de novos negócios sustentáveis. Para tanto, buscou inovar, surpreender e atualizar seu público por meio de uma programação de 20 horas e 72 atividades, sobre visões, rumos e estratégias dos negócios sustentáveis.

 

O conceito 360°, lançado em 2014, foi mantido em 2015. Assim, sem salas, sem paredes, 179 palestrantes, entre os mais importantes líderes do mundo em seus temas, dividiram-se em atividades dinâmicas por sete palcos com avançados recursos multimídia, que permitiram aos participantesexperiência de conhecimento, networking e entretenimento.

 

O formato inovador, aliado ao conteúdo atual, deu aos 1.431 participantes a oportunidade de ampliar sua visão sobre a escalada dos negócios e da sustentabilidade no cenário corporativo em curto e longo prazo. O slogan do evento realmente retratou o que foi a conferência para quem dela participou: “Viva esta experiência”.

 

E quais experiências puderam ser vividas nos dois dias do evento?

 

Em primeiro lugar, o debate a respeito dos temas essenciais que estão no cerne da atual e crítica conjuntura econômica e política do país, sempre sob o ponto de vista do papel das empresas.

 

Integridade, transparência e combate à corrupção

 

Um tema discutido em várias atividades foi o da prevenção e combate à corrupção. Logo na abertura, o desembargador Fausto De Sanctis e o jurista alemão Andreas Pohlmann comentaram o papel das empresas para um ambiente de negócios mais íntegro. Celina Carpi, presidente do Conselho Deliberativo do Ethos, e eu fomos mediadores deste diálogo.

 

De Sanctis tornou-se conhecido por sua atuação em diversos casos de combate à corrupção e lavagem de dinheiro, como a Operação Satiagraha, e por decisões que anteciparam o conteúdo da Lei Anticorrupção Empresarial.

 

Pohlmann foi responsável pelo compliance global da Siemens entre 2007 a 2010 e hoje integra o Comitê Especial criado pela Petrobras para acompanhar as investigações de corrupção na empresa. Ele afirmou, em sua palestra, que “pagar propina não é cultural em país nenhum”. Para ele, quem faz uso desse expediente quer, na verdade, ser promovido e se aproveita de uma “lacuna” originada na alta direção das companhias, que não deixa claro aos funcionários que quer negócios limpos.

 

Ainda no tema integridade, é importante ressaltar a participação do ministro Valdir Simão, da Controladoria-Geral da União (CGU). Ele mostrou que, além dos prejuízos aos cofres públicos, a corrupção também produz impactos negativos intangíveis, como a descrença nas instituições democráticas. Para combatê-la, o ministro Simão sugeriu trabalhar as relações éticas entre os servidores públicos, além de reduzir e monitorar a burocracia, pois o excesso de procedimentos sem a necessária vigilância está na origem de tantos ilícitos.

 

Transparência no esporte e ações do Ethos

 

Outra atividade que atraiu o público foi o diálogo entre o jornalista Juca Kfouri, William Machado, ex-capitão do Corinthians, e Ricardo Borges, diretor executivo do Bom Senso FC. Eles conversaram sobre a governança do futebol brasileiro, concluindo que falta transparência e modelos de negócios mais atualizados à gestão, bem como profissionalização administrativo-financeira.

 

Questões de integridade também foram tema de atividades que trataram das ações do Instituto Ethos e de parceiros, como o estabelecimento depactos setoriais e iniciativas que visam disseminar a cultura de integridade nas empresas e na sociedade.

 

Nova contabilidade para o bem-estar social

 

Meio ambiente, inclusão social e caminhos para a economia sustentável foram outros motes para palestras, diálogos e entrevistas.

 

A questão social foi abordada, entre outros, pelo economista Michael Green, diretor executivo do Social Progress Imperative. Idealizador do Índice de Prosperidade Social (IPS), que visa melhorar a análise de crescimento econômico, indo além dos dados do produto interno bruto (PIB) nas contabilidades nacionais, Green reforçou a importância de se considerarem as necessidades humanas, os fundamentos do bem-estar e as oportunidades para todos como critérios para definir o grau de desenvolvimento de um país. O economista também ressaltou que as empresas podem aplicar o IPS para verificar os impactos positivos e negativos de suas atividades, averiguar o quanto elas colaboram para o bem-estar da sociedade e completar a tradicional análise de valor agregado, como forma de verificar o crescimento corporativo.

 

Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

 

Às vésperas da assembleia da ONU que discutiria a agenda pós-2015, com o estabelecimento dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), vários assuntos afins ocuparam muitas discussões da conferência. Os próprios ODS, a diversidade nas empresas e os caminhos da economia para alavancar o desenvolvimento sustentável foram alguns dos assuntos abordados.

 

No dia 22/9, Achim Steiner, diretor executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), fez palestra sobre a Agenda de Desenvolvimento pós-2015, que busca, essencialmente, alcançar padrões de dignidade humana para todos até 2030. A ferramenta para se chegar lá são os ODS. Steiner explicou como foi aberto e participativo o processo de definição desses objetivos, que, por isso mesmo, trazem um olhar novo sobre velhos problemas. Dessa forma, abrem oportunidades para as empresas alavancarem negócios sustentáveis, crescerem e contribuírem para a transformação da sociedade.

 

Os ODS também foram tema de uma atividade aberta, no final da tarde do dia 22. As entidades envolvidas na Estratégia ODS para o Brasilhomenagearam as pessoas e organizações que batalharam duro para o país atingir quase todas as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM).

 

O sucesso dos ODM ocorreu pelo engajamento de todos. Agora, com os ODS, a sociedade civil, as empresas e os governos precisam estar juntos, pensando de forma integrada, mas olhando como cada setor pode superar seus desafios.

 

Diversidade nas empresas

 

Um dos assuntos mais desafiadores para o país e para as empresas é a inclusão de mulheres e negros no meio empresarial, sobretudo nos postos de comando. Com as políticas afirmativas, houve avanços consideráveis em alguns setores, como o aumento do número de universitários negros e maior presença de ambos os grupos no mercado de trabalho. Mas os indicadores ainda mostram participação inferior ao papel que mulheres e negros possuem na demografia do país.

 

“O que é preciso fazer para a diversidade chegar às empresas?” O título de uma das atividades sobre o tema refletiu o desafio que gestores e líderes sociais enfrentam diariamente: incluir mulheres, negros, pessoas LGBT e pessoas com deficiência de forma equilibrada nos quadros funcionais e diretivos das empresas.

 

Várias personalidades discutiram o tema sob diversos ângulos. Na questão de gênero, Cida Bento, diretora do Centro de Estudos e Relações de Trabalho e Desigualdade (Ceert), Márcia Tiburi, filósofa e professora da Unicamp, Mónica Zalaquett, diretora executiva do Centro de Prevención de la Violencia, da Nicarágua, Hélio Santos, presidente do Conselho da Fundação Baobá, Simmy Larrat, secretária de Promoção de Políticas LGBT da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, e Judith Morrison, assessora do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), foram algumas das personalidades que participaram de palestras e diálogos sobre os desafios da diversidade para os negócios, a cultura e a sociedade no século 21. As discussões permitiram uma visão mais clara dessa agenda e deram subsídios para que os gestores e líderes estabeleçam iniciativas que levem a avanços mais consistentes em diversidade no meio empresarial.

 

Oportunidades para todos

 

A inclusão social propriamente dita promovida pelos negócios – entendida como criação de oportunidades para todos – também teve sua vez em atividades que trataram de empreendedorismo, inovação, empregabilidade de jovens e cadeia de valor, por exemplo. Vale destacar, no campo da transformação econômica, a palestra de Peter Lacy, diretor global para Serviços de Sustentabilidade da Accenture Strategy. Ele defendeu uma nova organização da produção e do consumo de bens e serviços, por meio da adoção dos princípios da economia circular, na qual nada se perde, tudo se (re)cria e tudo se transforma. Para transitar da economia tradicional para a circular, Lacy enumera cinco aspectos básicos a serem observados pelas empresas: redes de fornecimento, recuperação e reciclagem, ciclo de vida de produtos, compartilhamento de plataformas e novos produtos e serviços. Na visão de um “economista circular” como Peter Lacy, não basta às empresas e sociedades evitar desperdícios, recuperar e reciclar materiais. É preciso fazer com que esses recursos voltem ao circuito econômico-produtivo de maneira inovadora, gerando empregos, renda e oportunidades infinitas, bem como transformando o mercado e a sociedade.

 

Inovação e sustentabilidade

 

Nessa “pegada”, Sally Uren, fundadora e diretora executiva do Forum for the Future, apresentou casos sobre inovação na cadeia de valor do algodão, do plantio ao consumo, gerando impactos positivos desde a lavoura até a indústria têxtil e de vestuário global.

 

O desafio da inovação nas empresas e startups brasileiras foi tema de atividades que contaram com a participação de, entre outros, Maurício Minas, diretor do Bradesco, Juliano Seabra, diretor-geral da Endeavor, e Peter Seiffert, líder da área de Corporate Venture Capital da Embraer.

 

Empreendedorismo

 

O empreendedorismo é uma vertente imprescindível para a mudança na economia. Por isso, o tema “Como construir negócios bem-sucedidos e incluí-los em cadeias globais de suprimentos” foi discutido na conferência. Também foi destacada a função das pequenas e microempresas para a consolidação dos negócios sustentáveis, com a apresentação de casos exemplares de diferentes regiões do Brasil. O jornalista e apresentador Cazé Peçanha foi o “mestre de cerimônias” para negócios de sucesso cuja estratégia está assentada no tripé da sustentabilidade: os casos de moda responsável, com a participação de Hari Hartman, da Camisas Polo Salvador, e de Natacha Lopes e Gerfried Gaulhofer, da Panosocial; e de turismo sustentável, apresentados pelos empreendedores Rafael Sittoni Goelzer, proprietário da Fazenda Quinta da Estância, em Viamão (RS), e Vitória da Riva, proprietária da Cristalino Jungle Lodge, em Alta Floresta (MT).

 

Soluções para o clima

 

Realizada a dois meses da COP 21, a Conferência Ethos 2015 não poderia deixar de trazer à discussão os temas relacionados ao clima. Até aquela data, o governo brasileiro ainda não havia apresentado a Contribuição Nacionalmente Determinada Pretendida (INDC), fato que ocorreu dois dias depois, em Nova York, quando a presidente Dilma Rousseff anunciou as metas brasileiras para o clima num dos eventos da Assembleia Geral da ONU.

 

Entidades engajadas no caminho para uma nova economia esclareceram, durante a atividade aberta “Articulações empresariais pelo Clima”, o que o governo, as empresas e a sociedade fazem para mudar seus processos, incentivar a redução de emissões e uso de energias limpas e influenciar políticas públicas para a transição para uma nova economia. O acordo do clima, em Paris, deve trazer novas regulações para o comércio e a produção.

 

Se o Brasil estiver preparado, pode posicionar-se melhor nesta nova geopolítica que está surgindo, pois o país conta com vantagens comparativas e competitivas. Assim, num painel que discutiu como as empresas e o governo brasileiro podem aproveitar as oportunidades da COP 21, Everton Lucero, chefe da divisão de clima do Ministério das Relações Exteriores, mostrou-se otimista com os resultados para o país. Ele ressaltou que a delegação brasileira terá um papel importante para a conclusão do acordo e que este trará cláusulas bem interessantes para o futuro do país.

 

Um dos pontos mais polêmicos do possível acordo climático é a precificação de carbono. Na Conferência Ethos 360°, o brasileiro Alexandre Kossoy, especialista do Banco Mundial, comentou um relatório da instituição com dados recentes sobre o mercado de carbono. A perspectiva é de que esse mercado movimente mais de US$ 2 trilhões até 2050, mas é urgente precificar o carbono. O Brasil ainda tem buscado entender essa modalidade, mas o México, que pode ser considerado “concorrente” no mercado internacional, já está mais preparado para dar um preço ao carbono e instituir um imposto sobre emissões e pesticidas, como mostrou Mario Pampini, diretor da área de Mudanças Climáticas do Ministério do Meio Ambiente e Recursos Naturais mexicano.

 

A mensagem do diálogo foi que as empresas precisam preparar-se para a precificação do carbono. E não só porque terão mais (ou menos) custos. Mas porque a redução de carbono será cada vez mais um critério para direcionar os portfólios de produtos e serviços, como bem descreveram Dirk Voeste,da Basf, Tom Beagent, da PwC do Reino Unido, e Luciana Villanova, da Natura. Já Bertrand Swiderki, do Carrefour, comentou a experiência da plataforma The Climate Solutions Hub, criada na França para recolher as propostas e soluções práticas já utilizadas por empresas para enfrentar as mudanças climáticas.

 

A experiência britânica rumo a uma economia de baixo carbono também foi destacada na palestra de Fiona Woolf, advogada e ex-prefeita do distrito financeiro de Londres. Para ela, a transição para uma economia de baixo carbono é uma realidade iminente, já movimenta grandes fluxos de capitais e exige decisões audaciosas. No entanto, audácia não significa sucesso. Para a advogada britânica, empresas e governos precisam integrar os riscos climáticos às decisões estratégicas dos negócios e dos países. A segurança jurídica para realizar essa integração também é fator primordial para o sucesso da empreitada. “No Reino Unido, sempre pensamos mudanças com democracia”, disse ela.

 

Outros temas e palestrantes

 

Entre outros palestrantes presentes à Conferência Ethos 2015, vale mencionar:

 

- Juan Duque, sócio-diretor da Deloitte dos Estados Unidos, que trouxe os resultados recentes de uma pesquisa sobre critérios que investidores estão adotando para avaliar riscos e prevenir crises;

 

- Christopher Caine, presidente do Centre for the Global Entreprise, o qual advertiu que o mundo já mudou e administrar uma empresa, hoje, requer novas práticas de gestão, integradas com os stakeholders e antenadas com as rápidas transformações dos cenários;

 

- Kené Umeasiebgu, líder de Mudanças Climáticas e Agricultura Sustentável da britânica Tesco Stores, que sublinhou o papel do grande varejo para garantia de origem sustentável das mercadorias, com rastreamento, monitoramento e controle de impactos socioambientais;

 

- Beth Stevens, vice-presidente de sustentabilidade do Grupo Disney, a qual argumentou que a preocupação da empresa com as crianças e a família vai muito além da diversão, pois a Disney é uma das pioneiras, no setor de entretenimento, a estabelecer metas ambiciosas para reduzir carbono, resíduos sólidos e impactos ambientais dentro dos escritórios e estúdios e nas comunidades do entorno dos parques, bem como a ampliar em nas Américas unidades de conservação de espécies;

 

- Elisabeth Laville, diretora e fundadora da Utopies, que mostrou como a sustentabilidade pode ser fator de sucesso na comunicação das marcas;

 

- Jermyn Brooks, presidente do Conselho Consultivo Empresarial da Transparência Internacional, que discorreu sobre o papel dos sistemas de integridade das empresas para a internalização de boas práticas de conduta e de governança;

 

- John Tobin, responsável pela iniciativa Net Zero do B-Team, e Keith Tuffley, CEO do B-Team e fundador/CEO da NEUW Ventures AS, que conversaram a respeito do B-Team, uma iniciativa que visa incentivar o movimento global de líderes empresariais em favor de uma forma mais sustentável de fazer negócios, focando o bem-estar dos indivíduos e o equilíbrio ambiental.

 

Além destes, dezenas de personalidades e especialistas contribuíram para que a Conferência Ethos 2015 fosse um laboratório de tendências, um exercício de reflexão e uma ponte entre os vários segmentos da sociedade e da economia.

 

Afinal, quais foram os resultados de tantas atividades?

 

A Conferência Ethos deste ano teve como destaque o diálogo constante e aprofundado entre a sociedade civil, empresas, movimentos e governos sobre os grandes temas de interesse do Brasil, articulando propostas e interesses e ajudando a vislumbrar caminhos para a definição de uma agenda comum para o desenvolvimento sustentável no Brasil.

 

As diferentes visões, as inúmeras inspirações e os relacionamentos geraram valor tanto para os profissionais quanto para as empresas que estiveram presentes.

 

Foi relevante a própria realização da Conferência nos moldes em que ela ocorreu. E isto só foi possível graças à visão e ousadia dos patrocinadores e parceiros institucionais do Instituto Ethos.

 

Num momento crítico para a política e a economia do país, estas empresas não hesitaram em apostar num evento ainda inovador na forma, com um conteúdo que fala ao futuro, sem esquecer o presente. Por isso, nosso agradecimento a todas elas.

 

Aché, Alcoa, Banco do Brasil, Basf, Bradesco, Caixa Econômica Federal, Carrefour, Correios, CPFL Energia, Disney, Elektro, Instituto C&A, Itaú, Natura, Nestlé, One Health, Santander, Sebrae, Shell e Walmart.

Fonte: Jorge Abrahão / Instituto Ethos.




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