12/02/2015 O valor estratégico da água

O valor estratégico da água

Foto: divulgação.

A crise hídrica que enfrentamos pode ser a grande oportunidade para repensarmos nossos hábitos e construirmos uma nova convivência social.

 

A região metropolitana de São Paulo terá de enfrentar daqui para a frente, e provavelmente durante alguns anos, mudanças radicais de hábitos em relação ao uso da água. Não é exagero afirmar que nada será como antes: tomar banho, lavar louça, dar descarga, escovar os dentes. Mas não só isso. Indústria, comércio e agricultura – setores que mais consomem esse recurso – também precisam trabalhar contra o desperdício. E governos, preparar-se melhor para enfrentar os desafios da gestão desse recurso estratégico para a própria vida de qualquer lugar.

 

Já sabemos que toda forma de vida deste planeta precisa de água. Ela é também essencial para o desenvolvimento socioeconômico. Mas é um recurso finito e distribuído de maneira desigual entre países e entre regiões.

 

A água cobre dois terços da Terra, mas apenas 25% desse volume são de água doce, a maior parte congelada em geleiras. Assim, só 1% da água doce existente é adequado ao consumo humano e está distribuído em rios, lagos e lençóis subterrâneos de difícil acesso.

 

O Brasil tem a maior reserva de água doce do mundo – 12%. Mas essa água não está distribuída igualmente pelo território. A maior parte localiza-se na Amazônia. Mesmo assim, a Grande São Paulo é cortada por vários rios que, se utilizados para abastecimento, poderiam diminuir o problema da escassez que nos afeta agora. Só que todos eles foram canalizados e estão poluídos de tal forma que não servem nem mesmo para regar plantas, segundo especialistas. Isso mostra o descaso com que a sociedade e os governos sempre trataram um recurso estratégico e finito.

 

Pois, ao contrário do que ocorre no resto do mundo, nossa crise vem da abundância. O brasileiro consome, em média, 200 litros de água por dia, quando a quantidade diária ideal recomendada pela Organização das Nações Unidas (ONU) é de 110 litros. Gastamos 215 litros para lavar carro com mangueira, 135 litros para tomar banho de ducha, 279 litros para lavar calçada. Tudo isso com água tratada.

 

Mas, há desperdícios maiores. Os distribuidores de água deixam pelo caminho 38% da água tratada no país. Isso equivale a 3,6 bilhões de litros perdidos anualmente.

 

Na agricultura, boa parte da água utilizada nas lavouras é perdida na evaporação, por conta da baixa eficiência tecnológica das fazendas. Os agrotóxicos também colaboram para diminuição dos recursos hídricos do país, pois contaminam lençóis freáticos e mananciais. Com isso, é preciso captar mais água para as lavouras, reduzindo a disponibilidade dela tanto para o campo quanto para as cidades, bem como comprometendo a qualidade dos rios e das espécies aquáticas.

 

A água é vital para todas as espécies vivas do planeta. Por isso, precisamos estabelecer um modo de utilização que permita nossa sobrevivência sem pôr em risco a sobrevivência dos demais seres.

 

A crise hídrica pela qual estamos passando pode ser a grande oportunidade para repensarmos nossos hábitos e construirmos uma nova convivência social, mais solidária, participativa e compartilhada.

 

Vamos mostrar como é possível, comentando um caso concreto de gestão empresarial sustentável, o foco do Ethos.

 

O exemplo da Coca Cola

 

A indústria de bebidas utiliza grandes volumes de água em seus processos. Por isso, as empresas vêm se preocupando em encontrar soluções para a escassez já há algum tempo. A Coca Cola do Brasil, por exemplo, lançou em 2006 o desafio de ser neutra em água até 2020. Para chegar lá, adotou a estratégia dos 3 Rs:

 

Reduzir. Utilizar 1,35 litro de água por litro de bebida produzida. Hoje, a empresa produz 1 litro de bebida com 1,4 litro de água, incluindo o conteúdo da embalagem.

 

No âmbito interno, a instalação de banheiros inteligentes garantiu a redução de 21% no consumo de água.

 

Repor. Devolver à natureza 100% da água utilizada na produção das bebidas. Para atingir esse objetivo, a Coca Cola fez parceria com as ONGs The Nature Conservancy (TNC) e SOS Mata Atlântica no projeto “Água das Florestas”. Em 265 hectares localizados nas bacias dos rios Piraí (SP) e Guandu (RJ) foram plantadas mais de 2.000 mudas de espécies nativas por hectare, melhorando a qualidade da água e restabelecendo o ecossistema e o acesso da população a água limpa. O projeto também contribuiu para a redução de carbono.

 

Reciclar. Estar cem por cento em conformidade com os parâmetros de tratamento de efluentes. Além disso, a Coca Cola buscou fontes alternativas de recursos hídricos, como água de chuva. Além da sede, no Rio, a alternativa é empregada em mais 14 fabricantes no país, que captam 190 milhões de litros por ano, representando 1% do consumo total do sistema.

 

Ao todo, a redução aumentou de 8,2 milhões de metros cúbicos, em 2010, para 9,4 milhões, em 2011. Além disso, a Coca Cola informa ter reduzido em 15% a emissão de carbono.

 

E com relação ao racionamento?

 

Essas medidas vão ser suficientes para manter essa e outras empresas funcionando durante o aperto anunciado pela drástica redução no fornecimento de água em São Paulo?

 

A higiene básica dos trabalhadores é garantida pela CLT e ela pode ser impactada pela falta de água prolongada. Qual a solução?

 

O Instituto Ethos está tentando, em primeiro lugar, economizar ao máximo para fazer com que a água dure nos reservatórios, mesmo que o abastecimento seja interrompido. Escovar os dentes utilizando copo de água, reduzir a pressão das torneiras e das descargas, trocar copos de vidro por descartáveis e conscientizar os funcionários para que usem esse descartável por mais de uma vez. Também, estamos conversando com nossos vizinhos dos outros andares, para encontrarmos outras soluções.

 

Ao mesmo tempo, buscamos mobilizar empresas para articular com órgãos públicos e a sociedade civil fóruns de discussão permanente nos quais a população possa ser informada das reais condições dos reservatórios, opinar sobre medidas a serem adotadas e votar. Transparência e participação são fundamentais num momento de crise como este.

Fonte: Jorge Abrahão / Instituto Ethos.




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