16/07/2014

O aprendizado da Copa 2014: antes, durante e depois

Foto: divulgação.

A Copa começou no dia 12 de junho, cercada de incertezas quanto à organização e com a torcida brasileira bastante otimista em relação ao desempenho do time que vestia a Amarelinha.


As constantes reclamações da Fifa pelos atrasos nos estádios, obras de mobilidade que não ficaram prontas, bem como outras que foram adiadas para depois da Copa e saíram da matriz de responsabilidade, e o noticiário negativo sobre os problemas do país, publicado aqui e lá fora, fizeram muita gente, no Brasil e no exterior, duvidar da capacidade de nosso país dar conta do desafio que é receber centenas de milhares de turistas do mundo todo.


Já nos gramados, embora alguns comentaristas destacassem a fragilidade do meio-campo, poucos duvidavam do sucesso da seleção brasileira dentro das quatro linhas.
Pois aconteceu justamente o oposto.


Durante a Copa


Num balanço preliminar, o Ministério do Turismo avalia que vieram ao país entre 800 mil e 1 milhão de turistas. A operadora de cartões Cielo calcula que essa massa de gente gastou cerca de R$ 260 milhões em compras por dia, principalmente em bares e restaurantes. O maior tíquete médio individual foi dos holandeses, com R$ 450,00 por compra/dia. O menor, dos argentinos, com R$ 127,00 por compra/dia.


A Folha de S Paulo trouxe o resultado de uma pesquisa sobre a organização da Copa, feita com os estrangeiros que visitaram o país durante o evento. E ele foi aprovado por 83% dos estrangeiros. O ponto alto foi a hospitalidade, destacada por 95% dos entrevistados, enquanto 83% elogiaram a organização e 82% ressaltaram a segurança.


A pesquisa do Datafolha encontrou turistas de mais de 60 países. A que foi feita pelo Ministério do Turismo, por meio da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), ouviu mais de 6.000 pessoas e listou estrangeiros de 203 países. De modo geral, eles vieram com expectativas ruins sobre o país, em razão de notícias negativas publicadas na imprensa antes da Copa. Todavia, estão indo embora sem pressa, tal a afinidade que sentiram pelo Brasil e pelos brasileiros. Muitos deles, principalmente latino-americanos, que vieram “sem lenço e sem documento”, resolveram até passar uma temporada por aqui, escolhendo para estadia preferencialmente o Rio de Janeiro, São Paulo ou alguma capital do Nordeste.


A Fifa, antes tão ressabiada com a capacidade brasileira de sediar a Copa, agora acena com a possibilidade de trazer para cá o Mundial de Clubes de 2017 e 2018.
Tudo isso demonstra que tanto a gestão pública quanto a iniciativa privada tiveram competência e eficiência para dar conta dos grandes desafios de logística e de planejamento, entre outros, para fazer uma “máquina” de serviços e produtos funcionar a contento e na hora certa.


E depois da Copa?


A imagem positiva deixada pelo país abre oportunidades de novos investimentos e de acordos bilaterais com vários países, segundo economistas da Unicamp. A “marca” Brasil sai valorizada e o sucesso pode ser explorado pela indústria da moda, de frutas tropicais e do próprio turismo.


Não é possível falar de Copa do Mundo sem mencionar a questão do desmantelamento da quadrilha de cambistas que operava internacionalmente, e há várias copas, para vender ingressos no câmbio negro. A atuação das autoridades brasileiras foi exemplar. Se continuar agindo assim no que tange a assuntos internos nacionais, teremos um grande avanço no combate à corrupção e na transparência dos processos de gestão pública e privada. Temos capacidade de atuação e, com isso, vamos criando uma nova atitude em relação aos crimes de corrupção. Não os aceitamos mais.


Por isso, o caso da Máfia dos Ingressos, como vem sendo chamado, também servirá para ampliar o cuidado das empresas com o patrocínio aos esportes. Elas, certamente, exigirão maior transparência e ética dos clubes e dos dirigentes antes de assumir compromissos que envolvam a marca e a reputação.


Para orientar a iniciativa privada, o Pacto Global da ONU lançou recentemente o manual Combatendo a Corrupção no Patrocínio Esportivo e Ações de Hospitalidade – um Guia Prático para Empresas, elaborado por uma série de entidades, como o Pacto Global da ONU, o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crimes (UNODC), o Instituto Ethos, a Transparência Internacional, a Fachverband für Sponsoring und Sonderwerbeformen e.V e Humboldt-Viadrina School of Governance. Sete empresas também participaram da elaboração do documento: Coca-Cola, ENI, Microsoft, MTN Nigeria, Petrobras, Sanlam e System Capital Management.


Para enfrentar os riscos relacionados à corrupção, são propostas seis etapas:


1)  comprometimento com os princípios de conduta empresarial do Pacto Global da ONU;
2)  avaliação de riscos, oportunidades e impactos;
3)  definição de metas;
4)  implementação de estratégias;
5)  mensuração de impactos; e
6)  comunicação do progresso às partes interessadas.


Esta Copa também serviu para aumentar a consciência da população a respeito das questões sociais, inclusive sobre os problemas do próprio futebol, em decorrência do fraco desempenho da nossa seleção.


Os brasileiros, mesmo durante o período dos jogos, não deixaram de reclamar sobre os impactos sociais e sobre as obras inacabadas da Copa, inclusive estádios. As obras deviam ser entregues antes de junho de 2014 e, pelo novo cronograma divulgado por Estados e municípios, algumas só estarão prontas em 2016.


Quanto aos impactos sociais, o principal deles tem sido as remoções que as obras promoveram, um drama da vida de centenas de milhares de famílias.


A Articulação Nacional de Comitês Populares da Copa (Ancop) calcula que 200 mil pessoas, ou 60 mil famílias, estejam passando por despejos relacionados à Copa e à Olimpíada de 2016.


Já Secretaria-Geral da Presidência da República divulgou, no último dia 10 de julho, números mais modestos de remoções: 10.804 famílias. Brasília é a única sem desapropriações, porque o estádio Mané Garrincha foi refeito em cima do anterior e a maior obra de mobilidade, um retorno, foi construída num terreno desocupado. A cidade com mais remoções, pelo levantamento federal, foi Porto Alegre, com 3.218 famílias desalojadas e 270 terrenos ou imóveis comerciais desapropriados.


A maior parte das famílias atingidas (68%) tem renda média de três salários mínimos.


Para 2016, na Olimpíada do Rio de Janeiro, podemos melhorar o processo de participação social e de planejamento das obras, pois os serviços extracontratuais, os problemas de licitação e outros que surgem tornam as construções mais caras. Precisamos capacitar mais nossos técnicos para evitar as paralisações por erros de projeto, de maneira geral.


Baseados na experiência da Copa, os governos, federal, estadual e municipal deveriam, quem sabe, abrir canais de diálogo para discutir com a sociedade onde investir dinheiro público e onde deixar apenas a iniciativa privada responsabilizar-se pela obra. Também quanto aos gastos, é possível ampliar muito a transparência deles, levando em conta a Lei de Acesso à Informação.


Enfim, o melhor do Brasil, na Copa, foram os brasileiros. Então, está em nossas mãos resolver os nossos problemas.


* Jorge Abrahão é diretor-presidente do Instituto Ethos.

Fonte: Instituto Ethos.




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