20/04/2018 O canudo que permite beber água suja de esgoto sem ficar doente

O canudo que permite beber água suja de esgoto sem ficar doente

Há 2,1 bilhões de pessoas no mundo sem uma fonte segura de água para beber, segundo a OMS. Foto: Getty Images.

"Eu não beberia isso se fosse você". O conselho vem de um homem em um barco próximo, que me observava com uma divertida expressão de perplexidade por algum tempo. Estou desajeitadamente deitada à beira do Rio Tâmisa, em Londres, inclinada para colocar um pouco de seu líquido verde e tenebroso dentro da minha garrafa vazia de água.

 

Meu plano maluco começa com um fato alarmante. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 2,1 bilhões de pessoas no planeta que não têm uma fonte segura de água para beber. Consequentemente, mais pessoas morrem ao beber água contaminada todo ano do que de qualquer forma de violência, incluindo guerras.

 

Tâmisa antes de chegar em Londres
Getty Images. O Tâmisa é tranquilo e mais limpo antes de entrar em
Londres, onde fica poluído com esgoto

 

Conforme a população mundial aumenta e as mudanças climáticas pioram, nossos problemas com a água estão ficando cada vez piores. Até 2025, metade da população estará vivendo em locais onde a demanda por água limpa é maior do que seu fornecimento.

 

Há uma nova geração de soluções ousadas, desde purificadores de água que funcionam a base de fezes até máquinas que filtram partículas usando água com gás. Uma dessas é a LifeStraw, um canudo que limpa a água conforme ela passa por uma série de fibras longas e ocas, inseridas em um tubo de plástico.

 

A versão original funciona como um canudo normal, você simplesmente mergulha uma extremidade em alguma água e suga do outro lado. Qualquer coisa maior que dois mícrons - ou um centésimo da grossura de um fio de cabelo humano - ficará preso ali antes de chegar à sua boca. Isso inclui 99,9% dos parasitas e 99,9999% das bactérias, como as que causam cólera, disenteria e febre tifóide. Quando sugada por um LifeStraw, até mesmo a água mais lamacenta fica tão limpa quanto as de riachos de montanhas.

 

Uma ideia nascida há duas décadas

 

Tudo começou em 1996, quando um empreendedor dinamarquês, Mikkel Frandsen, transformou o negócio do seu avô, de confecção de uniformes, em algo que pudesse melhorar a vida de pessoas na África. A primeira versão do LifeStraw foi criada para ajudar a erradicar o verme da Guiné, uma das mais cruéis doenças a persistir no século 21.

 

A doença é causada por uma série de fatores - água suja, infectada por moscas contaminadas por larvas de verme. Se você tiver o infortúnio de beber essa água, os vermes vão ficar maduros e se reproduzir dentro do seu corpo durante vários meses e eventualmente vão aparecer na superfície da sua pele, através da qual eles tentarão passar para sair. O resultado é frequentemente infeccioso e ocasionalmente resulta em membros amputados. É terrivelmente dolorido e não há vacina ou droga que possa tratá-la.

 

Para começar, o canudo contém uma rede simples, que poderia remover insetos relativamente grandes. Ao longo de duas décadas, a empresa de Frandsen ajudou na erradicação da doença com 37 milhões de unidades, o que ajudou a reduzir o número de casos de doença do verme da Guiné de 3,5 milhões em 1986 para apenas 25 no ano passado. "Essa será a segunda doença erradicada na história", diz DeWitte.

 

Canudo LifeStraw
Getty Images. O canudo foi criado para erradicar o verme da Guiné,
um parasita encontrado na África

 

Hoje, a tecnologia evoluiu a ponto de um canudo filtrar todas as bactérias, parasitas e moscas de 4 mil litros de água, o bastante para manter seu dono seguro por vários anos. Versões dele já foram usadas após desastres no Haiti, Equador, Paquistão e Tailândia e a companhia que os produz já está na metade do caminho para oferecer água limpa a um milhão de estudantes no Quênia.

 

Uma experiência no Tâmisa

 

Para checar a tecnologia, eu testei o LifeStraw original no líquido mais nojento que pude encontrar em Londres: a água do Tâmisa. Mas exatamente quão arriscado foi isso? E por que deveríamos nos importar?

 

"Há uma lista muito longa de patógenos no Tâmisa", diz Andrew Singer, um cientista do Centro NERC de Ecologia e Hidrologia. Quando eu falo a ele sobre o LifeStraw, ele dá risada. "Bem, seu experimento certamente irá testá-lo com precisão".

 

Apesar de muitos de nós pensarmos que água tratada do esgoto é relativamente limpa, a realidade é bem diferente. Na verdade, uma proporção muito grande do que sai dos londrinos - cerca de 15 milhões de pessoas - acaba no Tâmisa. "A quantidade de água lá é pequena comparada ao número de pessoas, o que significa que temos menos água para diluir do que despejamos ali. Nossos rios chegam a ter entre 10% e 100% de esgoto", diz Singer.

 

Quase sempre, trata-se de esgoto tratado, mas mesmo esse não pode ser considerado limpo. "Patógenos podem ser reduzidos em número, mas é tudo que podemos dizer com certeza", diz Singer.

 

Os principais perigos na maioria dos rios são os parasitas Cryptosporidium e Giardia lamblia, que causam diarreia e têm esporos tão pequenos e são tão difíceis de matar que às vezes chegam à água da nossa torneira.

 

Em vez disso, o objetivo primário do tratamento de esgoto é reduzir a quantidade de microorganismos prejudiciais e material orgânico na água, potencial exterminador de vida aquática.

 

Flint, Michigan
Getty Images. A poluição da água em Flint, Michigan, se tornou uma
história de impacto nos Estados Unidos

 

O esgoto também traz consigo uma dose elevada de fármacos. Um estudo de 2013 sobre tratamentos de água do mundo inteiro apontou que apenas metade das 42 substâncias presentes no esgoto, como cafeína e antibióticos, foram removidos pelos processos de tratamento.

 

E há também todas as coisas que são despejadas nos rios quando chove: pesticidas, herbicidas, resíduos animais, pequenas quantidades de metais tóxicos como cádmio - e tudo mais que os vários patos, gaivotas e ratos de esgoto da cidade expelirem. E, por fim, há o plástico. Um estudo de 2016 encontrou cerca de 35 mil partículas de plástico em amostras tiradas do Tâmisa, a maioria de embalagens de comida e bebida.

 

Essa poluição tem vários efeitos colaterais desagradáveis, inclusive peixes que se tornaram presas fáceis após sofrer mudança de gênero em águas contaminadas com o plástico das pílulas contraceptivas, que imitam a química do estrogênio, e antidepressivos que os deixam tontos. Os eventos de natação no Tâmisa, que geralmente têm como consequência casos de doenças em massa.

 

"Praticamente todo vírus que já existiu na Terra está no Tâmisa", diz Singer.

 

Mesmo se você não for irresponsável o bastante para tomar água direto de um rio, a poluição nos nossos rios pode não estar tão distante quanto gostaríamos de imaginar. Hoje, 83% da água da torneira no mundo contêm fibras plásticas, enquanto o estrogênio dissolvido poderia estar contribuindo para o declínio rápido do número de espermas nos homens.

 

"As questões com água limpa não param no nível microbiológico", diz Alison Hill, diretor da LifeStraw. "E enquanto pensarmos que a contaminação da água é um problema do mundo em desenvolvimento, eu acredito que o que vimos nos últimos cinco anos em lugares como Flint, em Michigan (EUA) demonstra que a preocupação de ter água limpa é uma preocupação americana também".

 

Mulher utilizando o LifeStraw
Os fabricantes do LifeStraw dizem que ele pode remover 99.9% dos
parasitas e bactérias presentes na água não tratada
(Foto: Zaria Gorvett)

 

Depois de certo tempo, consegui coletar água do Tâmisa o suficiente sem cair ou ser atacada por patos. Para evitar mais olhares de desconhecidos, decidi bebê-la já no meu apartamento.

 

Operar o canudo é fácil - basta remover as proteções de ambas as extremidades, mergulhá-la no líquido não potável de sua escolha e usá-lo como um canudo normal.

 

Levou alguns segundos, mas logo um fluxo de água filtrada do rio estava fluindo por ali. O veredito? Estava muito gelada e surpreendentemente refrescante. Eu achei que pude detectar notas de vegetação pantanosa, mas isso provavelmente foi a minha imaginação. E não, eu não fiquei doente.

Fonte: Zaria Gorvett - BBC Future.




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