23/10/2013

Interiorização do Desenvolvimento: IDH Municipal 2013

Ladislau Dowbor é economista e professor titular no Departamento de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foto: Divulgação

Pela primeira vez o Brasil está começando a resgatar sua imensa dívida social. Aqui não há voo de galinha, e sim progresso consistente e sustentado.


Já era tempo que tivéssemos boas cifras sobre como anda o Brasil na sua base territorial. O Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil 2013 apresenta a evolução dos indicadores nos 5.565 municípios do país. A confiabilidade é aqui muito importante. No caso, trata-se de um trabalho conjunto do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que tem anos de experiência internacional e nacional de elaboração de indicadores de desenvolvimento humano, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e da Fundação João Pinheiro, de Minas Gerais, além de numerosos consultores externos. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não há como manipular cifras, ou dar-lhes interpretação desequilibrada, com este leque de instituições de pesquisa.

Outro fator importante: o estudo cobre os anos de 1991 a 2010, o que permite olhar um período suficientemente longo para se ter uma imagem de conjunto, em vez de dramatizar cada oscilação segundo os interesses midiáticos. O fato de avaliar duas décadas também favorece uma interpretação mais isenta em termos políticos, pois se trata de administrações diferentes.

Para os leigos, lembremos que o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apresenta a evolução combinada da renda per capita, da educação e da saúde. Isso permite desde já ultrapassar em parte a deformação ligada às estatísticas centradas apenas no produto interno bruto (PIB), que mede a intensidade de uso dos recursos, e não os resultados. Um desastre ambiental como o vazamento de petróleo no Golfo do México, só para dar um exemplo, elevou o PIB dos Estados Unidos ao gerar gastos suplementares com a descontaminação, “aquecendo” a economia. O fato de prejudicar o meio ambiente e a população não entra na conta. Aliás, a criminalidade também aumenta o PIB.

O dado mais global mostra que, nestas duas décadas, o Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) passou de 0,493, ou seja, “Muito Baixo”, para 0,727, “Alto”. Isso representa um salto de 48% no período. Em 1991, o Brasil contava 85,8% de seus municípios no grupo “Muito Baixo”; em 2010, apenas 0,6%, ou seja, 32 municípios. O caminho que temos pela frente ainda é imenso. O Nordeste ainda apresenta 1.099 municípios, 61,3% do total, com índice “Baixo”, na faixa dos 0,50 e 0,60 do IDHM. Mas o que o dado geral representa para este país dividido é imenso: a interiorização do desenvolvimento.

A esperança de vida ao nascer passou de 0,493 em 1991 para 0,727 em 2010, o que significa que, na média, o brasileiro ganhou 9 anos extras de vida. No plano da educação, passamos de 30,1% para 54,9% a cifra de adultos com mais de 18 anos que tinham concluído o ensino fundamental. Em termos de fluxo escolar da população jovem, segundo indicador do item educação, passamos do indicador 0,268 em 1991 para 0,686 em 2010, o que representa um avanço de 128%. A área de educação é a que mais avançou, mas também continua a mais atrasada, pelo patamar de partida particularmente baixo que tínhamos. E, em termos de renda mensal per capita, passamos de 0,647 para 0,739 no período, o que representou um aumento de R$ 346.

São avanços extremamente significativos. Pela primeira vez o Brasil está começando a resgatar a sua imensa dívida social. Aqui não há voo de galinha, e sim um progresso consistente e sustentado. Por outro lado, os mesmos dados mostram o quanto temos de avançar ainda. É característico o dado de população de 18 a 20 anos de idade com o ensino médio completo: 13,0% em 1991, 41,0% em 2010. Grande avanço e imenso campo pela frente.

Fonte: Atlas de Desenvolvimento Humano no Brasil 2013, p. 41

 

O documento é também importante porque nos dá um visão desagregada, no nível dos municípios. O IDHM 2013 apresenta uma ferramenta de primeira importância para os municípios, que passam a dispor de uma base de dados de cerca de 180 indicadores, desagregados por município, permitindo fazer comparações e acompanhar a evolução. O acesso é simples, com nome do município, em www.atlasbrasil.org.br. Uma análise do aporte pode também ser acessada em vídeo de 13 minutos, pelo link http://dowbor.org/2013/10/serie-atlas-brasil-2013-desenvolvimento-humano-em-debate-entrevista-com-ladislau-dowbor-outubro-2013-13-min.html/

Fonte: Ladislau Dowbor / Instituto Ethos




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