26/03/2018 Febre amarela, uma ameaça à saúde pública e uma tragédia ambiental

Febre amarela, uma ameaça à saúde pública e uma tragédia ambiental

Sérgio​ Lucena. Foto: divulgação.

O membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Sérgio Lucena, comenta sobre a origem da doença e suas consequências para a biodiversidade

 

Confira um artigo produzido por Sérgio Lucena*, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza. A Rede é uma reunião de profissionais, de referência nacional e internacional, que atuam em áreas relacionadas à proteção da biodiversidade e assuntos correlatos, com o objetivo de estimular a divulgação de posicionamentos em defesa da conservação da natureza brasileira. A Rede foi constituída em 2014, por iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. ​​​

 

A febre amarela é provocada por um vírus que foi trazido da África há, pelo menos, três séculos. O vírus, adaptado a primatas (macacos e humanos) é transmitido exclusivamente por algumas espécies de mosquitos. A doença não é transmitida de um ser humano para o outro, do macaco para o homem, ou vice-versa.

 

A maioria das pessoas é resistente ao vírus e, se infectadas, apresentam eventualmente sintomas brandos. Entretanto, pessoas não resistentes podem adoecer gravemente e falecer em poucos dias. Por isso é considerada uma doença de alto risco.

 

Como o vírus se instala, principalmente, no fígado, provocando morte das células hepáticas, pacientes em estado grave desenvolvem uma hepatite, que se manifesta na cor amarelada da pele e olhos, donde vem o nome “febre amarela”.

 

No Brasil são conhecidos dois ciclos da febre amarela, o ciclo urbano e o ciclo silvestre. O vírus é o mesmo, mas o que difere são os vetores (mosquitos) e hospedeiros (humanos ou macacos). No ciclo urbano o vetor é o Aedes aegypti e o hospedeiro é o ser humano, enquanto no ciclo silvestre são conhecidos dois gêneros de mosquitos como vetores (Haemagogus e Sabethes) e a virose é, usualmente, transmitida dos mosquitos contaminados para os macacos. Chama-se ciclo silvestre (de selva) porque ocorre em áreas de matas onde existem os vetores e hospedeiros. Oficialmente a febre amarela urbana foi extinta no Brasil no ano de 1942, mas o vírus continuou circulando no ciclo silvestre, principalmente na região amazônica.

 

A partir da década de 2000 surtos extra-amazônicos da febre amarela começaram a se intensificar, alcançando estados do Centro-Oeste e oeste de Minas Gerais. Entre 2008 e 2009 um grande surto atingiu o sul do Brasil e países limítrofes, resultando na morte de, pelo menos, 2.000 macacos no Rio Grande do Sul, mas foi de baixo impacto para a população humana, com a morte de nove pessoas pela doença.

 

A partir da primavera de 2016 um surto de febre amarela silvestre alcançou a Mata Atlântica do sudeste brasileiro, provocando a morte de milhares de macacos, principalmente nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, com o registro de 717 casos e 135 mortes humanas pela doença nesses dois estados, até agosto de 2017. Amplamente noticiado pela imprensa nacional e estrangeira, este foi considerado o maior surto de febre amarela silvestre da história do Brasil.

 

Com a queda da temperatura em meados de 2017 e consequente declínio das populações de mosquitos, a virose permaneceu silenciosa por alguns meses, deixando dúvidas se retornaria à Mata Atlântica no verão seguinte. A resposta veio em dezembro, quando novas mortes de macacos por febre amarela foram confirmadas em São Paulo, Rio de janeiro e Minas Gerais. Este novo surto, a exemplo de 2017, também traz consigo o paradoxo de ser um ciclo silvestre que atinge regiões metropolitanas, inclusive as grandes capitais do Sudeste. Apesar disso, como a doença envolve macacos e, certamente, mosquitos que ocorrem em matas, consideramos tratar-se do ciclo silvestre.

 

Certamente estamos diante de um novo fenômeno epidemiológico que precisa ser mais bem estudado e compreendido. Uma doença que até recentemente era tratada como coisa do passado, isolada nos rincões do Brasil, hoje invade as metrópoles do Sudeste. Profissionais da saúde, virologistas, zoólogos e ecólogos precisam se unir para dissecar o fenômeno.

 

A população humana pode e deve ser protegida com a vacina, que é considerada de alta eficácia. Entretanto, o bloqueio vacinal chegou tarde, por exemplo, em alguns municípios de Minas Gerais, considerando que a virose encontra-se no leste de Minas desde 2016. Não se justifica que, nessa região, pessoas ainda estejam adoecendo e morrendo de febre amarela.

 

Quanto aos macacos, infelizmente, uma vez que o surto é instalado, quase nada se pode fazer. Mesmo se tivéssemos uma produção de vacinas para esses animais, tecnicamente é inviável capturar e vacinar milhares de macacos Brasil afora. Uma vacinação poderia ser útil em casos muito específicos, ou seja, para uma pequena população isolada, de uma espécie criticamente em perigo de extinção.

 

Não bastasse a morte impiedosa de milhares de macacos pela febre amarela, agora temos testemunhado várias denúncias de que pessoas, por ignorância, estão matando esses inocentes animais. Além de ser crime ambiental e não ajudar na prevenção da doença, essa atitude pode agravar a situação, inclusive por confundir o sistema de vigilância epidemiológica, já que a morte epidêmica de macacos sinaliza por onde a febre amarela está passando. 

 

Nos estado do Espírito Santo e Minas Gerais temos pesquisado o impacto do surto da febre amarela sobre as populações de diferentes espécies de primatas, visando propor medidas que ajudem a restabelecer as populações dizimadas. Conforme esperado, já podemos constatar que em matas maiores há uma maior chance de sobreviverem alguns macacos, dando a esperança de que venham a se restabelecer.  Em matas pequenas e isoladas, entretanto, é comum sucumbir toda a população de macacos, provocando a extinção local.

 

Enquanto a vacinação é a melhor solução para prevenir a doença nos seres humanos, para a proteção dos macacos precisamos investir na educação da população humana e nas pesquisas que possam ajudar na compreensão desse fenômeno devastador. Com o conhecimento científico, poderemos nos preparar para possíveis surtos futuros e investir na recuperação das espécies da nossa fauna que estão sendo impactadas pela doença.

Fonte: Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.




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