27/12/2013

Emissões recorde de CO2 em 2013 lançam uma busca por energia

A queima de combustíveis fósseis para geração de energia contribui para a China ser a maior poluidora do mundo. O governo usa termoelétricas movidas a carvão, uma fonte poluente e não renovável, como essa em Ningbo, na província de Zhejiang. Foto: Carlos Barria/Reuters

Não há dúvidas de que chegamos a um ponto crucial para a energia no mundo. Mas se pensarmos bem, estamos o tempo todo em algum ponto crucial. Quando ficamos tranquilos com aquilo que esperamos que possa acontecer, alguma grande mudança aparece e muda todos os nossos pressupostos. Por exemplo:

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    - Há menos de três anos, um "renascimento nuclear" parecia estar prestes a acontecer. Agora, após o acidente de Fukushima, no Japão, o renascimento se transformou em uma "colcha nuclear de retalhos" – que avança em alguns países, desacelera ou para em outros.

  • - Há cinco anos, os EUA haviam chegado ao auge do consumo de petróleo e estariam em breve sem sua principal fonte de energia. Desde então, a produção nacional de petróleo bruto aumentou 56 por cento e as importações caíram 40 por cento.

  • - Há quatro anos, o custo dos painéis solares parecia incapaz de cair. Então, a repentina superprodução chinesa diminuiu os custos em mais de 60 por cento.

  • - Há meia década, os EUA estavam se tornando o maior importador mundial de gás natural liquefeito, gastando 100 bilhões de dólares ao ano para compensar a queda na produtividade doméstica. Agora, graças ao gás de xisto, o país se tornará muito em breve um exportador para a Ásia e para a Europa.

  • - Há dois anos, a Alemanha avançava a toda velocidade para implementar a Energiewende — uma adoção rápida de fontes renováveis de energia. Agora, o país passa por um momento difícil de reavaliação, graças aos custos altos e à perda de competitividade internacional.

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A rapidez dessas mudanças é um desafio não apenas para as indústrias energéticas, mas também para os consumidores e governos que dependem delas, em função dos custos altos e dos prazos longos ligados aos investimentos em energia. 10 e 15 anos podem se passar do momento que um grande campo de petróleo offshore é descoberto ao momento que ele começa a produzir. Uma usina elétrica demora até cinco anos para ser construída e sua vida útil é de cerca de 60 anos ou mais.


Sendo assim, como podemos avaliar o futuro da energia? Uma das maneiras é por meio do uso de cenários. Eles não devem ser previsões, mas "histórias" plausíveis do que pode ocorrer no futuro. Esses cenários ajudam a identificar o que parece ser predeterminado e com quais possibilidades podemos contar. Eles também destacam as forças motrizes e as principais incertezas – além das surpresas potenciais antes que elas venham a acontecer.


As histórias abaixo foram escritas como se estivéssemos chegado a 2030. Tomando por base os trabalhos que supervisionei na empresa de pesquisa IHS (da qual sou vice-diretor), proponho três futuros possíveis: o "Redesenho Global", a "Meta" e o "Vórtice". Os três são plausíveis, mas levam a equilíbrios bastante diferentes entre as fontes de energia convencionais – petróleo, gás natural e carvão mineral – e as fontes renováveis, como a solar e a eólica.


1. Redesenho Global

Este é um mundo que voltou ao normal. O planeta voltou a crescer após a crise que começou em 2008 e o comércio internacional passou a aumentar a um ritmo ainda mais acelerado.


Não foi fácil chegar até aqui. Depois de ficar à beira do abismo fiscal e de enfrentar relutantemente as demandas da população cada vez mais idosa, os países industriais começaram a levar a sério seus orçamentos e déficits. Naquilo que veio a ser chamado de o "reajuste mundial", os governos redefiniram gastos e impostos de forma a apoiar o crescimento global – e gerar um faturamento maior para os governos.


Entre 2010 e 2030, a economia mundial dobrou de tamanho e a demanda energética cresceu 42 por cento. A maior parte desse aumento ocorreu nas economias que costumavam ser chamadas de emergentes, mas que agora são conhecidas como Economias de Crescimento Rápido. Em 2030, o antigo "mundo em desenvolvimento" se tornou responsável por 65 por cento do consumo de energia no planeta.


Adequar-se a esse crescimento na demanda parecia um desafio intransponível em 2014. O que tornou isso possível foram dois conjuntos de avanços: a revolução na extração de petróleo e gás natural não convencionais; e a queda constante no preços das energias renováveis.


Em 2030, o gás de xisto se tornou responsável por 70 por cento da produção de gás natural dos EUA, comparado com apenas dois por cento em 2000 e 44 por cento em 2013. Fontes baratas de gás incentivaram a economia americana e aumentaram sua competitividade no contexto global. Não surpreende, portanto, que, em resposta à energia de baixo custo dos Estados Unidos, empresas europeias tenham aberto fábricas nos Estados Unidos; porém, o choque ocorreu quando grandes empresas chinesas passaram a abrir fábricas nos Estados Unidos.


A aplicação da tecnologia do gás de xisto ao "petróleo de folhelho" continuou a crescer nos EUA. Em 2020, ela já havia dobrado em relação aos níveis de 2008 e os Estados Unidos estavam superando a Rússia e a Arábia Saudita como principais produtores de petróleo do mundo.


O impacto econômico foi enorme. Os cerca de quatro milhões de empregos gerados pela revolução nas fontes não convencionais de petróleo e gás natural, combinados com regulamentações estatais eficazes para o fraturamento hidráulico, bem como com a inovação nas técnicas de produção e de gestão das águas residuais, dissiparam boa parte da oposição pública.


Em 2020, a revolução das fontes de petróleo não convencionais começou a se tornar global, com o aumento na produção de gás natural em diversos países, liderados pela China. Até mesmo a França – cujo crescimento não acompanhava o restante do mundo, cuja indústria encolhia e cuja taxa de desemprego era altíssima – deixou de se opor ao fraturamento hidráulico. A aplicação organizada da tecnologia do gás de xisto ao petróleo do Xisto de Bazhenov, na Sibéria Ocidental, por meio de parcerias entre as grandes petrolíferas russas e empresas ocidentais, levou a um aumento considerável na produção russa de petróleo.


Apesar dos custos de desenvolvimento mais altos, o gás e o petróleo convencionais entraram em uma nova era de crescimento. Em 2025, as perspectivas econômicas do leste africano foram transformadas pelo desenvolvimento de recursos massivos de gás natural offshore. Com grandes descobertas no Mediterrâneo, Israel também passou a ser um importante exportador da gás natural. Depois de controlar os custos de desenvolvimento do pré-sal, o Brasil se tornou um dos maiores exportadores mundiais de petróleo. Em 2025, a produção brasileira era duas vezes maior que a da Venezuela, onde a economia desordenada, a corrupção e a turbulência política tornaram o país um exemplo de oportunidades perdidas.


Em 2030, o gás natural chegou ao mesmo nível do carvão mineral e do petróleo como principais fontes mundiais de energia e deve assumir em breve o primeiro lugar.


Melhorias na manufatura e na inovação continuam a reduzir os custos da energia solar, embora não da maneira dramática registrada entre 2010 e 2013. Surpreendentemente, a eficácia das turbinas eólicas – e, em especial, sua capacidade de operar em ventos de baixa velocidade – aumentou graças aos novos materiais utilizados nas pás e ao aumento de sua envergadura. A partir de 2014, mais de 60 países adotaram leis que exigiam o uso de fontes renováveis de eletricidade. Com a continuidade dos subsídios, a eletricidade renovável se tornou uma parte cada vez maior da nova capacidade de produção elétrica em todo o planeta.


A inovação gerou impactos em outros lugares também. Os avanços esperados há muito tempo nos biocombustíveis finalmente ocorreram a um custo e escala que permitiu que tirassem parte do mercado do petróleo na indústria dos transportes. Porém, os carros elétricos não emplacaram. Embora tenham se tornado mais comuns nas estradas, eles continuam fazendo parte de um nicho de mercado, já que as baterias continuam teimosamente caras. Os carros híbridos, por outro lado, são responsáveis por uma parcela significativa do mercado.


Outra característica do Redesenho Global é a ênfase renovada na eficiência energética de edifícios e meios de transporte, acompanhada por uma mudança nos valores e atitudes do público.


Porém, o crescimento tem suas desvantagens. Uma vez que mais pessoas passaram a ter dinheiro para comprar carros, os congestionamentos se tornaram uma característica frustrante da vida nas megacidades de todo o planeta. Nada simbolizou isso mais que o "Engarrafamento Turco" de 2017, quando um congestionamento caótico levou Istambul a parar por quase uma semana. Nos anos seguintes, as atitudes em relação à propriedade dos carros mudaram graças aos engarrafamentos intermináveis nos países de Crescimento Rápido e as vendas mundiais de carros ficaram abaixo do esperado, levando o consumo de petróleo a crescer mais lentamente que o esperado.


Portanto, o que parecia impossível em 2014 – que a energia fosse capaz de levar a economia mundial a dobrar de tamanho entre 2010 e 2030 – revelou-se uma possibilidade concreta.


Arte UOL

Emissões de CO2 chegaram a 400 ppm em maio de 2013


2. Meta, ou a Era dos Renováveis e do Transporte Elétrico

Neste cenário, uma série de acontecimentos, incluindo furacões devastadores no Golfo do México, tempestades terríveis na Ásia, secas e um calor insuportável na Rússia, o derretimento de gelo ártico e das geleiras nos Himalaias tornaram a mudança climática um assunto central não apenas para os governo, mas para uma opinião pública cada vez mais assustada.


Isso levou a uma série de iniciativas governamentais que apoiavam as fontes renováveis de energia por meio de uma série de leis e subsídios. Porém, foi o "Choque de Petróleo" de 2016 – a falta generalizada de petróleo causada pelos tumultos que se seguiram à Primavera Árabe, a crises políticas na África e aos furacões no Golfo do México – que levou os preços do petróleo aos níveis mais altos da história.


O choque de petróleo causou repercussões em toda a economia mundial. Com o crescimento da economia mundial voltando a fraquejar, a segurança energética e a mudança climática voltaram a ser um assunto central da agenda internacional. Governos foram levados a procurar alternativas ao petróleo. Suas políticas ganharam apoio com o Acordo Geral de Comércio e Energia assinado em 2017, que coordenou as políticas nacionais em relação à mudança climática.


Em 2020, depois que os efeitos do choque de petróleo passaram, a economia global entrou em uma era de "grande moderação" e de crescimento econômico, gerando receita aos governos para aumentar o subsídio a energias renováveis e para dar ênfase à eficiência energética.


Essa é uma nova era de inovação energética. O mais impressionante foram os avanços que eram esperados há muito tempo na tecnologia de baterias para automóveis, conhecidos como "Regra 20-3" – uma melhora de 20 por cento no desempenho das baterias a cada três anos. A penetração de mercado dos carros elétricos e híbridos acelerou-se. A Nissan inaugurou um novo capítulo com seu carro Leaf XL, capaz de percorrer longas distâncias. A Tesla transformou o Model S e, em seguida, o Model R em símbolos de status, e sua joint venture com a Toyota passou a disponibilizar carros elétricos a um público mais amplo. A GM fez o mesmo com veículos que iam do popular Spark e ao elegante Cadillac ELT, exclusivamente elétrico. O CEO da Tesla, Elon Musk, recebeu o prêmio Genesis Technology Prize, reconhecido por muitos como o Nobel da inovação global.


Os preços do petróleo começaram a cair no início dos anos 2020, mas isso não reverteu sua perda de mercado. Em 2030, os carros elétricos correspondiam a 32 por cento das vendas globais. Na China, que se tornou o maior mercado automotivo do mundo, a parcela é ainda maior. Transmissões híbridas passaram a ser utilizadas em motores de combustão interna para aproveitar ainda mais cada gota de combustível.


A energia renovável passou por mudanças similares. Depois de caírem mais de 60 por cento entre 2010 e 2013, os preços dos painéis solares se mantiveram estáveis, graças à consolidação dos fabricantes chineses. Em 2017, os custos voltaram a cair, embora não ao mesmo ritmo. Arun Gupta – conhecido como o Henry Ford das empresas solares – recorreu a jovens formados no Instituto Indiano de Tecnologia para transformar a G Solar na principal inovadora e maior fabricante de painéis solares do mundo.


Embora a instalação de grandes turbinas eólicas em alto-mar tenha se desacelerado em função dos custos altos, as turbinas instaladas em terra firme melhoraram sua operação com ventos de baixa velocidade O gás natural se beneficiou do crescimento das fontes renováveis de energia, fornecendo eletricidade quando o sol não brilha e os ventos não sopram.


O mais surpreendente foi o retorno de uma das tecnologias de geração de energia livres de carbono: a atômica. Em 2022, esse tipo de energia voltou a ser considerado depois que foi comprovada a viabilidade de reatores modulares que poderiam ser construídos em fábricas e levados diretamente às usinas, encurtando o ciclo de construção e diminuindo o custo desse tipo de energia.


O Meta é um cenário de crescimento vigoroso das energias renováveis. Graças ao aumento da capacidade atual e ao fato de que os países de crescimento rápido continuam a investir no carvão mineral e no gás natural como fontes de energia, a parcela total dos renováveis continua pequena em 2030, mas cresce rapidamente e detém uma parcela muito maior do mercado energético mundial. Além disso, o fim do monopólio do petróleo nos transportes parece estar chegando ao fim.


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Brasil tem menor emissão em 20 anos, mas número deve crescer em até 3 anos


3. Os Tempos Turbulentos do Vórtice

O Vórtice é um mundo de conflitos e volatilidade – poucas mudanças no cenário energético e até mesmo um aumento no consumo de carvão mineral. A principal razão é a economia global: a crise de 1998 afetou os mercados emergentes; por outro lado, os problemas que começaram em 2008 foram principalmente uma crise do mundo industrializado. Porém, a bolha chinesa estourou e levou à Grande Quebra de 2017, que representou o pior de dois mundos, engolindo tanto o mundo desenvolvido, quanto os mercados emergentes.


O impacto da quebra foi ainda maior em função dos acontecimentos seguintes: um aumento no protecionismo, uma revolta contra os mercados, a busca desenfreada por bodes expiatórios, intervenções governamentais cada vez maiores nas economias e uma regulamentação imbecilizante que desacelerou os investimentos no setor privado. Nada disso recuperou as economias: pelo contrário, a economia global se tornou um "lamaçal do desalento".


O que finalmente deu início à recuperação foi a criação da Comissão Summers, pelo Grupo das 20 maiores economias em 2023, liderada pelo ex-Secretário da Fazenda dos EUA, Lawrence H. Summers, que ajudou a aliviar as animosidades internacionais e deu início à importante coordenação de políticas fiscais e cambiais.


Ainda assim, o crescimento econômico se manteve extremamente lento. Com a crise, os preços do petróleo e de outras commodities caíram, reduzindo o incentivo à adoção de fontes renováveis. Os orçamentos governamentais voltados para o desenvolvimento de energias renováveis caiu drasticamente. Até mesmo a Alemanha foi obrigada a diminuir o apoio à Energiewende em função dos custos altos e da perda de competitividade de seus artigos de exportação. Os motoristas deixaram de adotar carros elétricos em função dos preços altos.


O vencedor surpreendente no Vórtice foi o carvão mineral de baixo custo, que aumentou sua parcela de mercado até 2030. A Região da Ásia-Pacífico, que ainda estava aumentando sua capacidade de produção energética, tornou o carvão sua fonte predileta de energia. Por isso, as políticas climáticas passaram a ser um dos temas de maior debate no mundo, juntamente com o comércio e o protecionismo.


E depois?

O que será que o futuro promete? O rápido Redesenho Global, um futuro energético que inclui "todas as alternativas"? O cenário Meta, com mudança climática, alta no preço do petróleo e questões de segurança energética acelerando a mudança em favor de fontes renováveis de energia e transporte elétrico? Ou o Vórtice, uma economia mundial problemática, em que o carvão mineral vence e as energias renováveis perdem força?


As regras da escrita de cenários proíbem que os autores escolham um vencedor, ou até mesmo de digam qual deles lhes parece mais provável. Contudo, os leitores são livres para escolher. Lembrem-se apenas de uma coisa: mais acontecimentos relevantes irão acontecer no futuro e esses cenários podem ajudá-los a ver algumas "surpresas" antes que elas aconteçam.

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(Daniel Yergin é vice-diretor da Information Handling Services e um dos fundadores da Cambridge Energy Research Associates, além de autor do livro vencedor do Prêmio Pulitzer "The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power".)

Fonte: Daniel Yergin / The New York Times Syndicate




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