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RECUPERAÇÃO DE ÁREAS DEGRADADAS

Corredores de vida

Comunidades e empresas aprendem a preservar e a conviver com as matas ciliares, responsáveis por conectar paisagens e manter a biodiversidade

Por Adriane Alice Pereira

  Mata ciliar recuperada pela Bunge: vegetação cobre as margens do rio, que antes ficava desprotegido (abaixo)
 

Entre os vencedores do Prêmio Fritz Müller nas categorias Recuperação de Áreas Degradadas e Educação Ambiental há um objetivo em comum: o restabelecimento das matas ciliares. Recuperando diretamente as áreas, educando a comunidade e produzindo mudas, as iniciativas disseminam a importância de cuidar dessa vegetação essencial à biodiversidade.
Como o nome já diz, uma das funções dessa mata é servir como grandes cílios para proteger os rios contra a poluição e a erosão. “São também os grandes corredores de biodiversidade, responsáveis pela conectividade da paisagem”, destaca o coordenador do Laboratório de Ecologia Florestal do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina, Ademir Reis. Diante dessa importância, as matas ciliares são consideradas Áreas de Preservação Permanente (APPs) pelo Código Florestal Federal.
A importância, no entanto, não evita a destruição. Em Santa Catarina, a degradação teve início com os colonizadores que utilizaram os rios para orientação e suas margens como solo para a agricultura. A diversificação da economia trouxe novos problemas para as matas ciliares. Atualmente, recuperar essas áreas e preservá-las faz parte das premissas de desenvolvimento sustentável das comunidades e das empresas instaladas nessas regiões.
Um dos exemplos é a Bunge Alimentos, de Gaspar, que desenvolve desde 2005 o Programa de Recuperação Ambiental (PRA), em parceria com a Universidade Regional de Blumenau (FURB). O programa contempla ações de pesquisa e educação ambiental, com viveiro próprio para a produção de mudas de espécies nativas. Em três anos já foram produzidas cerca de 115 mil mudas de 30 espécies, utilizadas para a recuperação de 140 mil metros quadrados de mata ciliar do Rio Itajaí-Açu e afluentes.
Grande parte do plantio das mudas é feito por parceiros voluntários – 67 no total. “O parceiro assina um termo de compromisso e a equipe do projeto acompanha a recuperação da área oferecendo suporte técnico, mudas e mão-de-obra”, afirma Lílian Taise da Silva Beduschi, coordenadora nacional de meio ambiente da Bunge. O programa também inclui educação ambiental e mais de sete mil pessoas já participaram diretamente dessas atividades, entre professores, estudantes, comunidade e colaboradores da empresa.
O orçamento anual para manutenção do projeto é de R$ 588 mil, sendo que o investimento feito para a construção do Centro de Divulgação Ambiental e Lazer (CDAL), que envolve o PRA, foi de R$ 3,5 milhões. Recentemente, a Bunge ampliou a área de recuperação para outros três municípios (Navegantes, Itajaí e Apiúna) e incluiu outras linhas de pesquisa, inaugurando duas novas unidades de estudo em 2008.

  Projeto desenvolvido pela Unimed Extremo Oeste cria mudas nativas para recuperação de matas ciliares
 

Esperança
Voltado para a criação de mudas de espécies florestais nativas, o programa Unimed Cidadania e Flora, realizado pela Unimed Extremo Oeste, de São Miguel do Oeste, também destina grande parte da sua produção para a recuperação de matas ciliares. Um dos diferenciais desse projeto é a utilização de mão-de-obra de presidiários na produção das mudas, colaborando também para o desenvolvimento social.
O projeto, criado em 2001, já produziu cerca de 160 mil mudas, distribuídas gratuitamente a mais de 900 entidades para o plantio e recuperação de áreas degradadas. O único recurso financeiro do programa é uma contribuição mensal de R$ 500,00, concedida pela Unimed. “Parte do recurso é utilizada para a compra de insumos, mas o dinheiro também é destinado para as necessidades do presidiário e da sua família, como para a compra de remédios, despesas odontológicas etc.”, explica Obirajara Calasans, gerente da Unimed Extremo Oeste.
A ressocialização dos detentos também é um aspecto importante do projeto. A cada três dias de trabalho na produção de mudas, os detentos obtêm um dia de redução de pena. Já participaram do projeto 15 presos. “Despertamos a vocação pelo trabalho na terra. Muitos, após cumprir a pena, voltam para a agricultura e continuam voluntários do projeto”, diz o policial civil Norvalino Engel, idealizador e coordenador do projeto.

  Atividades da ONG Gato-do-Mato: importância de matas ciliares é abordada em programas de educação ambiental
 

Participação e educação
Envolver a comunidade é um dos aspectos fundamentais para o sucesso de um programa de recuperação de áreas de mata ciliar. “A sociedade precisa entender que não é apenas questão de ecologia, mas de qualidade de vida”, aponta o pesquisador Ademir Reis. Para formar essa nova mentalidade, segundo o professor, o processo-chave é a educação ambiental, foco da ONG Gato-do-Mato, de Caçador.
Desde 2001, a ONG desenvolve o Projeto Rio do Peixe de Educação Ambiental, resultado de um convênio com o Fundo Especial de Proteção ao Meio Ambiente (Fepema). O projeto teve início com um diagnóstico e levantamento fotográfico das áreas marginais do Rio do Peixe nos municípios de Caçador e Calmon. Também foi feita uma pesquisa bibliográfica para caracterização da ocupação das áreas ciliares na região. Com os recursos destinados pelo Fepema e por meio de parcerias com empresas e prefeituras locais, as informações obtidas com esses levantamentos foram transformadas em material de educação ambiental.

Informação e conhecimento
Foram produzidos mil cartazes, 30 mil fôlderes e 28 mil cartilhas que abordaram a importância da preservação da mata ciliar e a conscientização quanto ao depósito de lixo nas margens do rio. O material foi distribuído para todas as escolas das duas cidades. “Esse material teve uma avaliação extremamente positiva por parte dos professores e despertou nos estudantes o interesse em conhecer um pouco mais da história e da atual realidade do Rio do Peixe”, afirma Júlio César Moschetta da Silva, presidente da ONG Gato-do-Mato. O projeto envolveu ainda a construção de uma trilha às margens do Rio do Peixe, com extensão de 240 metros, e a produção de mais de quatro mil mudas de árvores nativas.
A ONG desenvolve outras iniciativas na área, como o projeto Mercado Ecológico, que tem como objetivo reduzir o uso de sacolas plásticas pelos supermercados da cidade e incentivar o desenvolvimento de programas de gestão ambiental. Outra iniciativa da ONG é a trilha do Parque das Araucárias, onde crianças conhecem espécies centenárias da flora e entram em contato com espécies raras da fauna local.

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