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RESÍDUOS URBANOS

Saúde em dose dupla

Sistemas de gestão de resíduos evitam uma série de danos ao meio ambiente e levam qualidade de vida
à população de Santa Catarina

Por Maira Flores e Andréia Seganfredo

  Campanha desenvolvida pela Iguaçu Energia recolhe, descontamina e recicla lâmpadas fluorescentes
 

A Constituição Federal deixa a cargo dos municípios a legislação sobre assuntos de interesse local e de organização dos serviços públicos. Por isso, tradicionalmente a gestão da limpeza urbana e dos resíduos sólidos gerados nas cidades, inclusive os provenientes dos estabelecimentos do setor de saúde, é de responsabilidade dos municípios. Mas a qualidade de vida nas cidades depende também da consciência de cada cidadão e da responsabilidade das empresas de diferentes setores.
Conforme a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2000, cerca de 125 mil tolneladas de lixo domiciliar eram coletadas, diariamente, em todos os municípios brasileiros. Os vencedores do Prêmio Fritz Müller 2008 na Categoria Resíduos Urbanos estão contribuindo para que parte dessa quantidade expressiva de resíduos tenha destino final adequado, evitando prejuízos ao meio ambiente e à saúde
da população.
A Iguaçu Energia, empresa distribuidora de energia em 10 municípios do Oeste de Santa Catarina, foi premiada pela campanha Recicla Lâmpadas, iniciativa criada em novembro de 2006, em parceria com a ONG Agenda 21 e o Ministério Público Estadual. Em um ano e meio de projeto, a empresa recolheu, descontaminou e reciclou 32 mil lâmpadas fluorescentes. O resultado foi obtido por meio de palestras de conscientização da população, mobilização em escolas e com a instalação de caixas coletoras nas áreas de concessão da empresa.
De acordo com o diretor da Iguaçu Energia, Antônio Cláudio Baldissera, a campanha trouxe à tona um problema de saúde pública, que antes não recebia a devida atenção. A empresa estima que 94% das lâmpadas eram lançadas em aterros sanitários da região, expondo o meio ambiente e os seres humanos ao vapor de mercúrio, um dos componentes das fluorescentes, que polui cursos d´água. “Esperamos que a partir de agora, municípios e empresas de outras regiões despertem para esse problema”, afirma Baldissera. Sem data para terminar, a mobilização continua em 10 cidades na região da Associação dos Municípios do Alto Irani (AMAI), a fim de conscientizar a população, estimada em 80 mil pessoas.

 
  Lixeiras para coleta seletiva integram o ambiente de trabalho
na Alesc
 

Poder público
Em Florianópolis, a Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina (Alesc) integrou a gestão de resíduos sólidos a um programa que previa mudanças na administração da Alesc, tendo como objetivo melhorar o ambiente de trabalho e contribuir para a mudança de cultura. Com o mote “Reduza, Reutilize, Recicle”, foi lançado, em junho de 2007, o projeto Consciência Limpa, voltado à coleta seletiva do lixo gerado na sede do Legislativo catarinense. Em um ano, a Alesc conseguiu mobilizar servidores públicos e funcionários terceirizados, e reciclou 55 toneladas de papel, uma tonelada de metal, sete toneladas de plástico e uma tonelada de vidro. Antes da iniciativa, os resíduos ainda eram depositados em lixo comum. “O projeto consolidou a coleta seletiva no âmbito da Alesc, que ocorria esporadicamente e sem nenhum tipo de planejamento e acompanhamento. Com forte apelo ambiental e atitude interna, a campanha institucional realizada mostra como atua ambientalmente a Assembléia”, afirma o coordenador de recursos materiais da Alesc, Luiz Fabro, que idealizou o projeto.
Segundo o coordenador do Consciência Limpa, Manoel José Fabiano, os resultados positivos se devem também à participação efetiva da equipe terceirizada de limpeza, responsável por recolher, armazenar e vender o lixo. Toda a renda provinda da reciclagem é rateada entre os mais de 50 funcionários que trabalham na limpeza. “A Assembléia está interessada em colocar o lixo no lugar certo e todo o recurso obtido com a venda é convertido para esse grupo de funcionários”, afirma Fabiano. De acordo com informações da coordenadora da equipe de limpeza, Rosália Soares, no último ano a equipe arrecadou R$ 15,5 mil. “A campanha é muito importante por complementar a renda desses funcionários e ainda contribuir para a preservação do meio ambiente”, afirma.

 
  Coleta e tratamento de Resíduos de
Serviços de Saúde realizados pela Tucano: cuidado para evitar contaminação
 

Cuidado especial
A Tucano Obras e Serviços, sediada em Maravilha, também leva o Prêmio Fritz Müller deste ano. Desde 2005, a empresa coleta e transporta todos os tipos de Resíduos de Serviços de Saúde (RSS) e realiza tratamento e disposição final de algumas classes, como resíduos infectantes biológicos, hemoderivados e objetos perfuro-cortantes. O restante é encaminhado para empresas terceirizadas, o que resulta em uma média de resíduos tratados pela Tucano de aproximadamente 200 mil litros/mês. “Preocupada com os impactos ambientais causados pela geração dos resíduos, a empresa adota medidas para minimizar os efeitos negativos que eles provocam ao ser humano, bem como ao ecossistema” afirma o engenheiro sanitarista e ambiental da Tucano, Maciel Welter.
O processo de coleta, transporte, tratamento e destinação correta desses resíduos envolve riscos e, na mesma medida, cuidados. A manipulação inadequada dos RSS pode ter como conseqüência a contaminação biológica, por microorganismos, ou química. Por isso a Tucano, além de treinar seus funcionários, também capacita os técnicos que trabalham nas unidades geradoras de RSS, por meio da distribuição de fôlderes, visitas in loco e palestras, que fornecem orientações sobre como embalar e manusear os resíduos. No transporte, seguindo a legislação vigente, são utilizados veículos adaptados – com compartimento de carga estanque, feito de material rígido e impermeável, e cantos arredondados para facilitar a lavagem e desinfecção.
Conforme Welter, no tratamento dos RSS é necessário eliminar ou reduzir o risco de contaminação, acidentes ocupacionais ou danos ao meio ambiente por meio de processos, métodos ou técnicas que alterem as características dos materiais. Na Tucano, isso ocorre através de esterilização em autoclave, com vapor saturado a alta temperatura (134°C) e pressão – processo que também ajuda a reduzir o volume dos resíduos. Os RSS são colocados em cestos de aço inox, revestidos com teflon para evitar a aderência dos materiais devido ao calor e encaminhados para a câmara, onde o processo de descontaminação dura cerca de uma hora – período em que se pode tratar até 250 quilos de resíduos. Depois disso, os RSS são tratados como lixo comum e dispostos no aterro sanitário da própria empresa, localizado no município de Anchieta.
A eficácia do tratamento dos resíduos de saúde é comprovada pelo monitoramento com esporos de bacillus stearothermophilus e análises laboratoriais. Ampolas com o microorganismo-teste e caldo de cultivo são colocadas junto com os RSS nos cestos de inox – dispostas no fundo, ao meio e sobre os resíduos. Terminado o processo, são retiradas e colocadas em incubadoras por 48 horas e, posteriormente, comparadas com ampolas contendo os bacilos vivos. Já a avaliação sobre a eficiência e o monitoramento ambiental do sistema de esterilização são feitos pela análise dos efluentes gerados na autoclave. Amostras têm a composição biológica analisada por laboratórios, que emitem laudos postos à disposição do órgão ambiental.

Serviço essencial
Na cidade de Xanxerê, outra empresa da área de obras e serviços tem na responsabilidade ambiental um grande diferencial competitivo. Fundada em 2001, a Continental é responsável pela coleta, transporte, tratamento e disposição final de resíduos em 24 municípios da região Oeste. A empresa investe em triagem de lixo, mas o que não pode ser reciclado é enviado, após receber tratamento adequado, ao aterro sanitário da Continental em Xanxerê. Devidamente licenciado, o aterro se localiza ao lado de uma área de reflorestamento mantida pela empresa. De acordo com o sócio-gerente da Continental, Ademir Barcella, a preocupação com o meio ambiente é uma constante na empresa, que se reforça com a conquista do Prêmio Fritz Müller 2008. “O prêmio concedido pela Fatma é um importante reconhecimento, que nos incentiva a aperfeiçoar cada vez mais nossos sistemas de gestão ambiental”. A Continental conta hoje com 100 funcionários diretos. Além da disposição dos resíduos, a operação do aterro inclui o monitoramento das águas e do sistema de tratamento de líquidos percolados, para evitar contaminação do solo e de mananciais.


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