14/11/2018 Por um modelo agrícola que não destrua o Cerrado

Por um modelo agrícola que não destrua o Cerrado

Novo relatório mostra que municípios do Matopiba, região modelo do agronegócio, continuam pobres. Foto: Amanda Perobelli / Greenpeace.

Evento de lançamento de estudo sobre o Matopiba reforça a importância do bioma para combater as mudanças climáticas

 

O desmatamento no Cerrado não é um “custo inerente e necessário” ao progresso e a elevação da produção agrícola não se traduz em melhorias econômicas e sociais para a região. Essa foi a principal mensagem passada no evento de lançamento do relatório “Segure a Linha – A Expansão do Agronegócio e a Disputa pelo Cerrado”, nesta segunda-feira, na Livraria da Vila, em São Paulo. O estudo inédito, apoiado pelo Greenpeace, analisa as dinâmicas socioeconômicas na região de Cerrado denominada Matopiba, que reúne municípios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.  

 

Os resultados da pesquisa mostram que existe mais pobreza e injustiça do que riqueza e bem-estar no Matopiba, e que o crescimento econômico decorrente da expansão do agronegócio é de curto prazo apenas. Dos 337 municípios do Matopiba, somente em 45 os indicadores de produção e bem-estar superam a média dos respectivos estados. Dos 10 maiores municípios produtores de soja no Matopiba, apenas três fazem parte do grupo classificado como “rico”, com bons indicadores sociais.

 

Arilson Favareto, autor do estudo
Arilson Favareto, autor do estudo © Amanda Perobelli / Greenpeace

 

“Trata-se de um modelo de produção que praticamente esteriliza o tecido social da região”, afirma o Professor Arilson Favareto, autor do estudo, sociólogo e doutor em Ciência Ambiental da Universidade Federal do ABC. Ele explica que o aumento da produção e da produtividade gera uma riqueza bastante concentrada, ampliando as desigualdades sociais.

 

Esse modelo de expansão do agronegócio acaba por limitar ou impedir o desenvolvimento de um projeto para o Cerrado que vá além dessa lógica, não degrade os recursos naturais, respeite os modos de vida das populações tradicionais e amplie as oportunidades para o país não exportar apenas commodities. Mas há quem vislumbre alternativas.

 

Fátima Barros, da Rede Cerrado
Fátima Barros, da Rede Cerrado © Amanda Perobelli / Greenpeace

 

Para Eduardo Assad, professor e pesquisador da Embrapa, o Cerrado é uma janela de oportunidade para nos prepararmos para as mudanças climáticas e, por isso, precisamos estudá-lo. Durante o debate, ele defendeu a necessidade de aprendermos com a extraordinária resiliência das espécies vegetais do bioma – que somam mais de 13 mil – quanto à adaptação à variação climática ao longo do tempo. “Há uma biodiversidade gigantesca no Cerrado que estamos perdendo. Mas a maior riqueza da região no futuro não será a soja e sim a diversidade. Não conheço supermercado que venda um produto só”.

 

Preservar as espécies nativas do segundo maior bioma brasileiro é também garantir a sobrevivência das comunidades que lá habitam. “A defesa da biodiversidade do Cerrado é a possibilidade de minha família continuar existindo”, pontua com emoção Fátima Barros, da Rede Cerrado e remanescente quilombola na Ilha de São Vicente, em Araguatins (TO). A família de Fátima, que está na ilha há 130 anos, faz uso da agroecologia, em equilíbrio com o ecossistema local. “Estou à frente da luta de meu povo porque compreendo a necessidade de continuar existindo. É resistir para existir”, afirma ela, que já sofreu quatro tentativas de despejo de seu território por conta do agronegócio.

 

Eduardo Assad, da Embrapa
Eduardo Assad, da Embrapa © Amanda Perobelli / Greenpeace

 

“Precisa desmatar mais? Não precisa”

 

A importância de se combater o desmatamento no Cerrado foi um dos pontos levantados no debate durante o lançamento do relatório, que contou com a mediação da jornalista Amália Safatle. Adriana Charoux, da campanha de Amazônia do Greenpeace, afirma que a proteção da vegetação nativa é essencial para assegurar a manutenção dos serviços ecossistêmicos, incluindo a produção agrícola. “O Cerrado é uma grande caixa d’água. É lá que nascem diversos rios vitais para as regiões por onde passam, como o Paraná e o Tapajós”.

 

Diferentemente dos produtores rurais na Amazônia, que precisam preservar 80% de suas propriedades como reserva legal, no Cerrado esse percentual é de apenas 20%. Assad, no entanto, questiona: “Ainda que o Código Florestal permita o desmatamento no Cerrado, a questão é: precisa desmatar mais? Não precisa”.

 

Debate sobre os impactos do agronegócio no Matopiba
Debate sobre os impactos do agronegócio no Matopiba © Amanda Perobelli / Greenpeace

 

Economicamente, o Cerrado de pé também é muito mais interessante. “Diminuir o combate ao desmatamento faz com que o Brasil perca competitividade econômica, o que pode prejudicar a geração de empregos”, alerta Charoux, lembrando que o compromisso das empresas de zerar o desmatamento em suas cadeias produtivas é essencial e urgente para a sobrevivência do bioma. “As escolhas de agora determinarão nossa vida no futuro. Não temos tempo a perder”.

 

Lançamento do relatório em São Paulo
Lançamento do relatório em São Paulo © Amanda Perobelli / Greenpeace

Fonte: Greenpeace - Mariana Campos.




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